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Poeta Ferreira Gullar morre de pneumonia aos 86 anos no Rio


04.12 - RIO - O poeta, ensaísta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo, tradutor e memorialista Ferreira Gullar morreu neste domingo, por volta das 11h, aos 86 anos. A informação foi confirmada pelo colunista Ancelmo Gois. O escritor estava internado há 20 dias no Hospital Copa D'Or, na Zona Sul do Rio, por complicações pulmonares. A partir de um quadro de pneumotórax, o escritor desenvolveu uma pneumonia. O velório acontece na noite deste domingo, na Biblioteca Nacional, e continuará na segunda-feira, quando o corpo será levado para a sede da ABL, às 9h.




O jornalista Zuenir Ventura esteve com o escritor e sua família no hospital nos últimos dias. Ele conta que o poeta estava consciente da gravidade de seu estado de saúde e, numa decisão lúcida e corajosa, não quis prolongar sua vida por meio de aparelhos.

Ferreira Gullar assumiu ao longa da vida uma extensa lista de papéis que, sozinhos, não dão a dimensão do seu lugar na cena cultural do país. Um dos fundadores do neoconcretismo, o poeta participou de todos os acontecimentos mais importantes da poesia brasileira. A escritora e também imortal da ABL Nélida Piñon destacou a biografia de Gullar que, segundo ela, não foi ofuscada por sua obra.

— O seu legado é a obra, que, às vezes, faz a gente até esquecer a biografia. Mas este não é o caso. Ele teve uma vida bonita, difícil e de grande dignidade. O sofrimento do exilado não lhe tirou a graça.

Quarto dos 11 filhos do casal Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart, ele nasceu José Ribamar Ferreira no dia 10 de setembro de 1930 em São Luiz, no Maranhão. Foi na sua cidade natal que Gullar se descobriu artista ao ler a poesia de românticos, como Gonçalves Dias, e parnasianos, como Olavo Bilac e Raimundo Correia. Em entrevista ao GLOBO, em 2015, ele lembrou do seu espanto juvenil ao conhecer um poeta pessoalmente pela primeira vez, Manuel Sobrinho, que se interessou pelos versos do então jovem iniciante.

— Eu achava que todos os poetas estavam mortos, mas descobri que São Luís estava cheia deles — brincou Gullar, na época. — O modernismo de 1922 só chegou ao Maranhão no fim dos anos 1940. Quando comecei a ler os modernos, minha visão da poesia mudou completamente e senti que não podia mais ficar em São Luís.

Assim, no início da década de 1950, o poeta se mudou para o Rio de Janeiro, onde conheceu o crítico de arte Mário Pedrosa e buscou introduzir na sua poesia as novas leituras: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Rainer Maria Rilke. Nos anos seguintes, Gullar esteve presente em momentos-chave das vanguardas artísticas brasileiras. Em 1956, participou da exposição concretista que é considerada o marco oficial do início da poesia concreta. Três anos depois criou, com Lígia Clark e Hélio Oiticica, o neoconcretismo, que valoriza a expressão e a subjetividade em oposição ao concretismo ortodoxo.

Militante do Partido Comunista, exilou-se na década de 1970, durante a ditadura militar, e viveu na União Soviética, na Argentina e Chile. Retornou ao país em 1977 e foi preso por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) no dia seguinte ao desembarque, no Rio. Foi libertado depois de 72 horas de interrogatório graças à intervenção de amigos junto a autoridades do regime. Depois disso, retornou aos poucos às atividades de critico, escritor e jornalista.

Eleito em 2014 para a Academia Brasileira de Letras, colecionava uma vasta lista de prêmios. Em 2002, foi indicado por nove professores dos Estados Unidos, do Brasil e de Portugal para o Prêmio Nobel de Literatura. Em 2007, seu livro "Resmungos" ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano. A obra, editada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, reúne crônicas de Gullar publicadas no jornal Folha de S.Paulo ao longo de 2005.

Em 2010, foi agraciado com o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, pelo conjunto da obra. No mesmo ano, foi contemplado com o título de Doutor Honoris Causa na Faculdade de Letras da UFRJ. Um ano depois ganhou o Prêmio Jabuti com o livro de poesia "Em alguma parte alguma". No ano passado, publicou "Autobiografia poética e outros textos" (Autêntica), um misto de depoimento sobre sua vida e obra e reflexão sobre o fazer poético.


Fonte: jornal O Globo
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Ítalo Dorneles

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