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Crônica de Fabrício Carpinejar sobre o seu pai Carlos Nejar

Carlos Nejar - Porte ideal de escritor


O jornalista Fabrício Carpinejar revela o perfil literário de seu pai Carlos Nejar, em primorosa crônica, que traz riqueza e detalhes sobre a alma complexa do grande autor gaúcho.

VICIADO

Herdei do pai a necessidade de ler.


Sem ler, estou morto.

Meu pai lê dois livros por dia. Ou seja, é bem mais vivo do que eu.

Ele compra livros que já adquiriu pela esperança que os livros mudem.

Não porque esquece os títulos, é pela fé que aquela nova edição poderá desenrolar a anterior.

Não existem livros ruins para meu pai, existem livros inacabados.

Ele transforma sua cama em escrivaninha, transforma sua rede em escrivaninha, transforma qualquer superfície em mesa de trabalho.

Carrega lápis e canetas no bolso. Como um pintor e seus inseparáveis pincéis. Dorme, come, toma banho com seus instrumentos.

Anota trechos mais significativos em cadernos, sublinha passagens que mais gosta com cruzes (numa escala de um a cinco), separa palavras que poderá usar em poemas e romances num caderninho de fiado.

Eu carrego esta fome familiar insaciável.

Levo vários livros na bolsa. De diferentes gêneros e atmosferas. Nunca prevejo o que pode me acalmar.

Na ausência de meus volumes, eu me agarro em revistas, palavras cruzadas e panfletos.

Sou um narcotizado pela leitura.

Quando bebo, leio as linhas miúdas do rótulo das garrafas.

Quando adoeço, leio as informações das bulas.

Não posso passar dois dias sem ler, que fico altamente agressivo.

E tem que ser em papel. Não vale celular e tablets.

Leio mais com o tato e ouvidos do que com os olhos. Talvez minha dificuldade de alfabetização tenha acentuado a gana.

Lembro o desespero paterno quando descansamos um final de semana em cabanas na serra gaúcha.

Ele deixou sua maleta de leitura em casa. Estávamos isolados do mundo, incomunicáveis.

A mãe planejou um final de semana longe da televisão, do rádio e dos incômodos externos. Mal antevia que estava criando um filme de terror.

O pai não conseguia conversar, manter a atenção, divertir-se com nada.

Aparentava um drogado, gaguejava, perambulava por um lado para o outro da varanda, à
procura de paz.

Mexia no lixo à cata de algo para ler. Mexia nos armários à caça de um pergaminho abandonado por algum hóspede.

Somente se aquietou quando viu uma garrafa de vinho embrulhada em jornal.

Desprezou o vinho. Pegou aquela folha standard, desamassou e começou a gargalhar.

Era uma edição do mês passado do Globo. Tal náufrago, economizou as notícias das quatro  páginas. Dividiu as manchetes pelas horas dos dois dias para não sofrer abstinência.

Nunca vi meu pai tão feliz. Ou aliviado.

O alívio é a felicidade dos viciados.


(Carlos Nejar)

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Crônica de Fabrício Carpinejar
Minuta de Diego Mendes Sousa
Homenagem a Carlos Nejar


Fonte: portal ProParnaíba.com
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Ítalo Dorneles

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