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Sartori defende criação de pedágios em entrevista ao JC

Marcus Meneghetti

O candidato do PMDB ao governo do Estado, José Ivo Sartori, passou para o segundo turno em primeiro lugar, com 40,4% dos votos. Na semana passada, recebeu o apoio da coligação entre PP, SDD, PSDB e PRB – cuja candidata ao Palácio Piratini, senadora Ana Amélia Lemos (PP), ficou em terceiro lugar no primeiro turno. Fortalecido pela ampliação dos partidos aliados - a coligação original tem oito siglas -, agora, Sartori enfrenta o candidato à reeleição, governador Tarso Genro (PT). A estratégia deve se manter a mesma: evitar críticas ao adversário.

Na semana passada, o peemedebista esteve no centro de uma polêmica por desmarcar debates agendados com antecedência para a primeira semana do segundo turno. Acusado de querer suprimir os confrontos diretos com Tarso, Sartori respondeu: “Vou participar de todos os debates”. O peemedebista reclama ainda que muitos debates foram marcados sem que sua coordenação de campanha tenha sido consultada.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Sartori critica a situação da malha rodoviária gaúcha, propondo Parcerias Público-Privadas (PPPs), consórcios e novos pedágios para duplicar estradas e construir outras novas. Ele explica ainda por que não quis assinar o documento formulado pelo Cpers Sindicato – cujo principal item era o compromisso em pagar o piso salarial dos professores.

O ofício foi apresentado a todos os candidatos. E, em uma referência ao adversário, defendeu que o aumento concedido pelo ex-governador Antonio Britto (PMDB) - 64,5% de reajuste, embora 12% tenham sido convertidos em precatórios - foi maior que o concedido por Tarso. Além disso, Sartori defendeu a pluralidade partidária e a participação da sociedade nas políticas públicas que pretende implementar. 

Jornal do Comércio – O que difere a sua candidatura da candidatura do seu adversário no segundo turno, o governador Tarso Genro, que busca a reeleição?

José Ivo Sartori – Constituímos uma coligação que acena para a transformação do Rio Grande do Sul, visando estabelecer um governo plural, democrático e aberto, para que o governo funcione e preste bons serviços à sociedade. Além disso, queremos um governo com coragem para enfrentar as dificuldades do Estado – especialmente as financeiras. Um governo que não faça apenas endividamento em cima de endividamento, porque isso não é sustentável para o Rio Grande. No futuro, temos que ter condições de aumentar a capacidade de endividamento para buscar recursos dentro e fora do País, justamente para investir em infraestrutura, em todas as suas modalidades, especialmente na rodoviária e no desenvolvimento regional, respeitando a vocação das economias locais. Também precisamos fazer uma luta política, junto com outros governadores, para mudar a matriz tributária brasileira e o modelo federativo distorcido do Brasil. Queremos que os municípios sejam bem aquinhoados, tanto nas responsabilidades quanto nos recursos, tanto nos encargos quanto nas condições financeiras para atender as necessidades da população.

JC – O senhor mencionou que, para contrair financiamentos mais adiante, tem que conter o endividamento do Estado. Como pretende diminuir o endividamento do Estado?

Sartori – Tem que ter capacidade de endividamento e, tendo projetos, dá para buscar recursos nacionais e internacionais. O governador tem que produzir projetos engajados na construção do Rio Grande do Sul. Mas, ninguém governa sem funcionários valorizados, com vontade, ânimo. Não se faz governo sem servidores. O que temos que fazer é cuidar bem dos recursos, das despesas, das receitas, sem aumentar impostos. Ninguém faz isso sozinho; se faz isso agregando, juntando para ter sustentação nas mudanças que precisam ser feitas.

JC – O senhor também falou em pacto federativo. Caso eleito, como o senhor poderia atuar nessa reforma, visto que é um tema que passa necessariamente pelo Congresso?

Sartori – O governador tem que ter atitude, ação política, ir atrás dos outros governadores, do próprio Congresso, do governo federal e começar a debater a necessidade de mudança daquilo que chamo de “modelo distorcido do processo federativo brasileiro”. Pretendo protagonizar um movimento a favor disso, porque o governador não é apenas o gestor das coisas públicas do Rio Grande do Sul, mas também um ente político que tem que ter atitude de percorrer o País para buscar aliados nessa caminhada.

JC – O senhor citou ainda a malha rodoviária como uma das áreas prioritárias a serem melhoradas. Como avalia a criação de uma estatal – a Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR) – para gerir as estradas do Estado?

Sartori – Ainda não temos uma posição definitiva sobre o assunto. Mesmo que (a EGR) tenha sido criada muito rapidamente, sem os prognósticos de onde e como iria atuar, eu espero que ela consiga fazer a manutenção e o melhoramento das estradas. Acho que ela pode, sim, ter um papel importante, pelo menos na manutenção das rodovias existentes. Não vou colocar nenhum empecilho. Mas não vou ser tão enfático quanto o (candidato a governador do PDT no primeiro turno) Vieira da Cunha, que acreditava que (a EGR) poderia buscar financiamentos novos, no futuro, para atender as demandas. Sempre deixei claro que podemos fazer PPPs. É preciso ter alternativas, visto que o Estado não tem condições de fazer grandes investimentos. Não tenho preconceito político nem ideológico para fazer PPPs. Concessões precisarão ser feitas, inclusive em termo de pedágios. É um assunto polêmico, mas o modelo federal pode ser uma boa alternativa.

JC – Então, pretende manter a EGR, mas não descarta PPPs...

Sartori – Sim, a EGR pode conviver tranquilamente com outras situações, cuidando do que existe. Mas estamos avaliando, não é definitivo isso. Como eu disse: desejo que (a EGR) consiga ampliar os investimentos que estão sendo feitos na recuperação de rodovias, só que penso no futuro. E, no futuro, teremos que fazer novas estradas, duplicações, projetos novos, etc. Aqui entram as PPPs, concessões e, às vezes, os consórcios regionais. E as PPPs e consórcios são necessários também em outras áreas. Nos municípios que têm a questão do encaminhamento do lixo, por exemplo, caberia muito bem os consórcios. Inclusive, na área da saúde. Grifo nosso.

JC – O senhor era líder da bancada do PMDB na Assembleia Legislativa, durante o governo Antônio Britto (PMDB), que privatizou a Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT). Hoje, existe alguma área que o senhor acredita que melhoraria sendo privatizada?

Sartori – Até acho que os modelos (de privatizações) foram positivos e bons, serviram para mudar o perfil do Rio Grande do Sul, mas pessoalmente não vejo nenhuma outra área que possa ser privatizada hoje. Mas houve um avanço no Brasil inteiro no modelo das comunicações, que hoje estão refletidas no aparelhamento tecnológico, técnico e na difusão entre os usuários. Queria saber se alguém queria ficar com as comunicações do jeito que eram antes, no Estado? O que tem que melhorar mais agora é o sinal, alcançando as distâncias em que ainda não chega. Acho que o resultado está aí, como aconteceu com a energia também: criou-se condições novas, tanto na tecnologia da informação quanto na produção de energia, que ajudou a criar um ambiente econômico novo para o Estado.

JC – No primeiro turno, durante a sabatina com os candidatos ao governo do Estado promovido pelo Cpers, o senhor não quis assinar o documento que registrava o compromisso dos candidatos com o pagamento do piso dos professores...

Sartori – Não foi isso. Os professores me apresentaram um documento para eu assinar que não envolvia apenas o compromisso com o piso salarial. Mas como eu vou prometer uma coisa que vou ter dificuldade de realizar? Expliquei para eles que quero valorizar os professores. O que é lei tem que ser cumprido. Como vai se cumprir essa legislação? Temos que negociar. Não vai ser de uma hora para outra: nem vai levar 50 anos, nem vai ser no mês que vem. A negociação entre um operário e um patrão é feita encontrando equilíbrio: uma média que atenda aquilo que está sendo solicitado, dentro daquilo que se pode fazer. Todo mundo conhece a realidade financeira do Rio Grande do Sul. Tenho certeza que os professores vão colaborar para que a gente construa um bom entendimento, uma maneira de resolver essas dificuldades, junto com a sociedade, governo, professores, funcionários, famílias, alunos, e a comunidade próxima à escola. Temos que criar formas para que a família participe da escola, para termos uma boa gestão escolar, estabelecendo, inclusive, metas e resultados.

JC – O senhor propõe o diálogo com a categoria para ver a melhor maneira de pagar o piso. O senhor já participou de negociações entre governo e profissionais da Educação, durante o governo Britto. Na época, o resultado gerou polêmicas com o Cpers. Pretende usar a experiência daquele momento, na negociação do pagamento do piso?

Sartori – (O aumento do governo Britto) foi muito maior do que o de hoje. Ele (Tarso) se gaba tanto por ter dado aumento aos professores, mas, no período do Britto, embora tenham faltado ainda 12%, que depois foram colocados como precatórios, o aumento para os professores foi muito superior ao que foi dado hoje. Cada um diz o que quer, do jeito que quer e passa a ser uma realidade. Mas não quero entrar nessa discussão, meu negócio é olhar para frente, não botar a culpa nos outros para salvar a nossa cara. A sociedade quer hoje política sendo feita com respeito, sem rancor, sem raiva. Pretendemos fazer uma campanha limpa e propositiva.

JC – A maioria dos partidos que não passaram para o segundo turno se engajaram na sua campanha. Na sua opinião, ao que se deve isso?

Sartori – Em primeiro lugar, temos que trabalhar todos juntos. Uns fiscalizando, sendo oposição, outros estando no governo. Acho que isso é o normal. Apesar de, como já disse, não achar que os eleitores do Tarso são meus inimigos. Em segundo lugar, fico gratificado por aqueles que vêm se somar no segundo turno, especialmente os partidos que fizeram parte da coligação da Ana Amélia Lemos. Recebo isso com muito carinho, mas também com muita responsabilidade. Afinal, se o PSDB, Solidariedade e PP nos apoiaram é porque todo mundo está preocupado com o amanhã, com a gestão. Vou fazer um governo plural e democrático. O governo não é de um partido, nem de uma sigla, nem é de um setor da sociedade, nem de uma região. As regiões são diferentes umas das outras e temos que começar um processo de equilíbrio regional com o fortalecimento das vocações regionais e locais, inclusive com os arranjos produtivos locais sendo alimentados, ajudados, colocados para frente. Eu sempre digo: se o governo não pode incentivar, no mínimo, não pode atrapalhar quem quer trabalhar.

JC – O senhor acha que o atual governo atrapalha?

Sartori – Existem setores em que atrapalha, especialmente, na questão ambiental. A gestão ambiental tem que ser desburocratizada. No mínimo, o cidadão que vai lá buscar uma licença ambiental tem que ter resposta, não pode ficar esperando um retorno quatro ou cinco anos. Tem que ter critérios para manter a sustentabilidade ecológica, mas tem que dar uma resposta: “está faltando isso”. A burocratização não ajuda o desenvolvimento, o progresso. Meio ambiente tem que fazer como fizemos em Caxias do Sul: investir na questão do lixo, investir na questão da água, no saneamento básico, e a questão da saúde em conjunto com essas. No Rio Grande do Sul, temos que ter critérios definidos, tem que estar colocados no conselho, enquanto a Fepam e a secretaria têm que ser os executores dos critérios estabelecidos.

JC – A sua coordenação de campanha cancelou alguns debates na primeira semana do segundo turno, o que gerou protestos do seu adversário e de algumas emissoras...

Sartori – Nenhum debate foi cancelado. Vou participar de todos os debates. Existem muitas evasivas, colocações, interpretações que já estão superadas. Existem debates já marcados. Eu até disse publicamente que, essa semana, não era adequada para ter debates, por conta da fase de organização do segundo turno, estabelecimento de todos os programas.
Perfil

José Ivo Sartori nasceu na localidade de Capela São Valentim, no interior de Farroupilha, em 25 de fevereiro de 1948. É formado em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul. Em 1976, pelo então MDB, venceu a eleição para vereador de Caxias do Sul, seu primeiro cargo no Legislativo. A partir de 1982, já pelo PMDB, foi eleito para o Parlamento gaúcho, onde foi deputado estadual por cinco mandatos, atuando como Constituinte (1988/1989). Ascendeu à Câmara dos Deputados em 2002. Depois de concorrer para a prefeitura de Caxias do Sul em 1992 e 2000, foi eleito para o cargo em 2004, conquistando a reeleição em 2008. Sua trajetória política também inclui a titularidade da Secretaria Estadual do Trabalho e Bem-Estar Social, entre 1987 e 1988, durante o governo de Pedro Simon (PMDB). Nestas eleições, na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul, chegou como líder do primeiro turno, conquistando 40,4% dos votos. Concorre no segundo turno contra o petista Tarso Genro.

Foto: Anderson Fetter / Reprodução
Fonte: Jornal do Comércio
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Ítalo Dorneles

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