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O despreparo de Ana Amélia


O despreparo de Ana Amélia

ANA AMÉLIA em ZH (18.09.14) - Entrevista comentada: “Demandas são legítimas, falta capacidade de atender”.
O título não poderia ser melhor. Duas páginas de ZH para não dizer absolutamente nada.

ZH: O que lhe move a ser candidata?
Ana Amélia: Preferia ficar no Senado, mas fui convocada e como sou de Lagoa Vermelha onde tem frio e geada vou enfrentar as adversidades como enfrentamos intempéries.
O que se pode comentar dessa resposta?

ZH: Como enfrentar de forma estrutural as finanças do Estado?
AA: Estou empenhada em trocar o indexador da dívida, que não está resolvida. Tenho dúvida que seja votada em novembro no Senado.
Tenho dúvidas também sobre o orçamento de 2015.
O projeto de Lei está no Senado para votação em Plenário. Ela é senadora. Sobre a crise estrutural, silêncio e dúvidas.

ZH: A senhora vê espaço político para a redução do percentual de comprometimento com a dívida?
AA: Pagamos 13% da receita por esse acordo. Por sermos Estado exportador temos um crédito pela desoneração das exportações, a famosa lei Kandir.
A lei Kandir foi do governo FHC com apoio do PP em Brasília e com o governo Britto que a elogiou, como também foram responsáveis pelo contrato da dívida com a União. As compensações tinham prazo de vigência que já terminou. A senadora não sabe.

ZH: A senhora é uma crítica da atual gestão eleita, quais seriam as medidas para se diferenciar?
AA: Cuidado com a qualidade do gasto.
Só isso, literalmente, foi a resposta.

ZH: Medidas específicas, candidata?
AA: Vamos reduzir. No gabinete do governador e do vice, na área do desenvolvimento e do Conselho, depois tem a Casa Civil e a Secretaria dos Prefeitos. Dessas, ficarão duas.
Sem comentários.

ZH: Caso a senhora implante o piso do magistério, de onde sairiam esses recursos?
AA: Não queremos fazer uma mudança radical, uma nova Revolução Farroupilha. Temos que ter calma e serenidade e ir ajustando. Temos quatro anos para colocar a casa em ordem. É evidente que não dá para aprovar um orçamento com mais de 12% da receita. A economia vai crescer 3%, se São Pedro ajudar na safra. Aí não tem como fechar a conta.
Bem diferente do discurso eleitoral que cobra de Tarso o pagamento do piso integral. Hoje, nenhum professor recebe menos que o piso e o plano de carreira foi mantido.

ZH: Mas o que vai ser pago e o que não vai ser?
AA: Não tem que fazer terrorismo. Não é o que deixa de pagar, é melhorar o gasto nas áreas desnecessárias.
Sem comentários. Não diz nada.

ZH: O MP e o Judiciário dizem que o orçamento é curto e precisam mais. A senhora vai tentar fazer com que eles abram mão?
AA: Vamos dizer “a situação é esta, nos ajudem a trabalhar em conjunto para resolver o problema”.
As demandas são legítimas, o problema é a capacidade do Estado de atender a essas demandas. Eu diria já a incapacidade de atendê-las.
Novamente não diz nada, diferente do discurso eleitoral na TV e no rádio.

ZH: A senhora apoia Aécio, mas seu discurso lembra o de Marina quando fala em “buscar os melhores”. Significa que ainda não tem esboço do seu secretariado?
AA: Temos ideias, mas começar a indicar nomes é uma irresponsabilidade política.
Evidentemente, será um governo do PP-PSDB, um governo neoliberal

ZH: Aécio já fez, indicando Armínio Fraga para a Fazenda.
AA: Você não pode comparar o RS com o Brasil. O Brasil precisa dar sinais ao mercado internacional. Aqui, precisa de um líder, que conduza um processo de mudança na forma de governo. O Estado perdeu credibilidade pela insegurança jurídica para os investidores nas PPPs, nas concessões.
A EGR com um terço da receita já investe mais que as concessionárias das estradas pedagiadas. A única PPP que apareceu, para a RS-010, queria R$ 1,6 bilhão em 20 anos e mais 30 anos cobrando pedágio para uma estrada de R$ 800 milhões. Um péssimo negócio para o Estado.

ZH: Como atrair grandes investimentos sem folga no caixa e com queixas dos empresários gaúchos da concentração de benefícios fiscais para grandes empreendimentos?
AA: Aqui, para uma empresa obter licenciamento ambiental são três anos. Em Santa Catarina, são 30 dias. As empresas estão indo embora. Não por conta dos incentivos, mas em busca de desburocratização.
Nem aqui são três anos, nem Santa Catarina são 30 dias. Projetos são muito diferenciados e de distinta complexidade.

ZH: Como se reduz o prazo mantendo o cuidado ambiental?
AA: Sustentabilidade é fundamental. Isso não vamos mudar uma vírgula. Vocês acham que SC e PR descuidam da preservação? Já pedi apoio ao MP do Estado, que tem atuado na área ambiental.

ZH: A senhora diz que quer menos CC’s, mas os partidos que a apoiam tem expectativa de indicar?
AA: Foi a primeira coisa que fiz, me reuni com SDD, PRB, PSDB e PP. Estou aceitando um desafio gigantesco, o maior da minha vida. Temos de mudar a forma de governar, não só mudar o governo.
Isso não exclui que tenhamos, dentro dos partidos, pessoas maravilhosas que vão estar lá também com esse compromisso.
Mais uma vez o discurso vago, sem compromisso e sem conhecimento.

ZH: A senhora exerceu um CC no Senado, mantendo outro emprego, e sustenta que não houve ilegalidade. Como a Sra. vê o episódio do ponto de vista ético, até porque o cargo era no gabinete do seu marido.
AA: O que é legal também é ético. Fiz trabalho correspondente a essa função gratificada. No meu gabinete ocupo 25% dos cargos, a maioria CC’s. Gasto 26% da verba disponível. Como recebo aposentadoria como viúva de um desembargador do Tribunal de Justiça, pedi que o senado somasse esse valor para ficar no teto limite do serviço público. Respondo pelo meu mandato, a lei antinepotismo só veio em 2007.
Antes ou depois da lei do nepotismo, receber do erário sem trabalhar no órgão pagador é mais que antiético, é crime. Como também é crime sonegar informação patrimonial diante da Justiça Eleitoral, tentando iludir o eleitor.

ZH: A senhora é comparada à ex-governadora Yeda Crusius. O que aproveitaria do governo Yeda em sua gestão?
AA: O que ela fez certo, cuidar das finanças. Ou a situação financeira do Estado, quando ela terminou o governo, era pior do que hoje?
A situação era pior. Economia estagnada, a mágica do déficit zero apenas escondia, contabilmente, o brutal déficit dos mínimos constitucionais que o Estado não cumpriu nas áreas de educação e saúde. Funcionalismo com reajustes abaixo da inflação, repressão aos movimentos sociais e grossa corrupção no Detran.
 
ZH: A senhora disse que seria cobrada se não tivesse coragem para aceitar a candidatura. Não será cobrada por eleitores que gostariam que concluísse seu mandato, como prometeu ao assumir?
AA: Só duas pessoas me abordaram dizendo que preferiam que eu ficasse no Senado. Uma delas era do PT.
Não há uma ideia nova, coerente e à altura dos problemas que o Rio Grande enfrenta.

A entrevista revela o desconhecimento e o despreparo para enfrentar os enormes desafios e a herança histórica de uma situação financeira que há décadas vinha se agravando no RS.

O governo Tarso Genro apostou, corretamente, em:

a) voltar a crescer a economia do RS com o papel indutor do Estado através da ação dos bancos públicos, atração de investimentos federais e do setor privado, na garantia de consumo com o “piso regional” e na redistribuição de renda.
b) enfrentar a questão da dívida com a União, liderando o movimento pela mudança do indexador e da diminuição dos juros.
c) criar o Fundo Previdenciário, para suprir a lacuna histórica no RS da não existência de uma previdência, pois o IPE servia para pagamento das pensões e de organizar um plano de saúde dos funcionários.
d) devolver ao controle público o sistema de pedagiamento para manutenção e ampliação da rede viária do Estado.
e) recuperar o “piso regional salarial” que o governo tucano havia liquidado, recolocando-o num patamar de 20% acima do mínimo nacional.

Por essas razões e por todas as demais políticas públicas desenvolvidas é que o povo do RS vai reeleger esse projeto alinhado com as positivas transformações que vive o Brasil.

Raul Pont - Dep. Estadual PT/RS
setembro de 2014

Fonte:  Informativo Raul Pont nº 116
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