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Caça ou caçador

Certa feita o Grêmio perdeu um Gre-nal na década de 90. No Olímpico. Duplamente raro. Foi em 1997, um atípico 5×2. Eu tinha 12 anos.
 
Até a adolescência, perguntava tudo pro meu pai. Assíduos nos jogos do Tricolor desde meus 5 ou 6 anos de idade, protagonizávamos diálogos interessantes. Interessantes pra mim, claro. Pra ele devia ser um saco. “Pai, por que tem ambulância? Onde os quero-queros dormem? O carro-maca usa gasolina? Por que o juíz tá rindo? Não dá pra ver o jogo de graça lá do cemitério?” E por aí vai. Mas voltemos ao fatídico Gre-nal.
 
Quase chegando em casa presenciamos um pequeno debate entre dois vizinhos. Um deles, colorado, gritou algo provocativo pela janela. O outro, sem pestanejar, respondeu: “tem o dia da caça e o do caçador“. Entendi na hora. O Grêmio – Bicampeão da América, Campeão do Mundo, ATUAL Campeão Brasileiro E da Copa do Brasil, que não parava de empilhar títulos anualmente, que vencia Gauchão com os reservas e etcétera – era o caçador. O Inter, eterno coadjuvante, nossa presa. Uma presa fácil que, porém, eventualmente tinha lá seus dias. Não perguntei nada ao pai. A analogia do gremista da janela era clara, óbvia, boa. Usei no colégio, inclusive.
 
Perder Gre-nal não é problema. Isso é do jogo, acontece. Em qualquer fase do time, acontece. O problema é a jaguatirica manhosa que o Grêmio virou. Um gatinho. Dá lá suas arranhadinhas, mas via de regra precisa fugir dos verdadeiros caçadores. Hoje somos caça. Se um gremista diz depois do Clássico desse último domingo que “tem o dia da caça e o do caçador”, provavelmente um menino de 12 anos não entenderia o sentido da frase. Hoje não faria sentido. Mesmo sem tomar 5, estamos falando de outro Grêmio. Um Grêmio bem pior.
 
“Enquanto vocês falarem do Mazembe, não ganharão nada“. Balela. Argumento mais estapafúrdio do mundo FIFA. Se o Grêmio ganhar 4 Libertadores nos próximos 5 anos, vou pra Goethe comemorar o Hexa imitando o Kidiaba. Rirei para sempre disso. Essa parte da corneta é sadia, sobretudo vindo da torcida. O problema é quando pensamos no Inter quando não deveríamos e/ou quando não temos envergadura moral – ou cacife – para fazê-lo. Quando nossa torcida entoa um canto infeliz e lembramos que colorados levaram cintos de segurança pro estádio ironizando a morte do Dener. Ou lembramos que 5 colorados espancaram um menino gremista de 15 anos. E aí ficamos tentando competir pra ver de quem é a cagada maior.
 
Esqueçam o Inter! ESSA grenalização é burra. Foquemos nos nossos erros, seja da torcida, da direção, do time. Se o Werley falhar de novo, a solução não é tentar achar um zagueiro do Inter pior que ele. A bronca é só e tão somente conosco.
 
Não me interessa se as reuniões do Conselho do Inter são boas ou ruins. Se tem barraco ou não. O fato é que a nossa última teve entrevero e quórum ridículo. Quero saber os porquês disso e, principalmente, entender como solucionar essas questões. Foda-se o Inter. Nosso problema é o Grêmio. Se tentarmos maquiar nossas falhas – do clube como um todo – procurando falhas maiores no Inter, não sairemos do lugar. Nos igualaremos ao co-irmão da década de 90, que fazia camisa do Ajax – o clube, não a torcida – sem nunca ter sequer pisado no Japão. O Inter era a legítima caça. Só virou o jogo quando olhou mais pra dentro e menos pra fora.
 
Direção, torcida e time do Inter fazem, dizem, cantam e protagonizam muita merda errada. Não tenho dúvidas. Não são perfeitos. Se vasculharmos, tem muita porcaria pra ser exposta aos holofotes. Mas, sinceramente, não me interessa. O foco do Grêmio tem que voltar a ser o Grêmio.
 
Precisamos parar de ser a hiena serelepe que faz festa quando foge do abate e debocha das que não tiveram a mesma sorte. Hora de reencontrarmos nossa espingarda. Mudarmos de patamar. Hora de dar uns tiros. Organizar o clube. Pensar pra frente. Limpar os erros crassos. E aí, com calma e planejamento, calibrar a mira e comprar um cachorro perdigueiro. Mas, de largada, já me basta dar uns tiros a esmo. Já me basta reencontrar um Grêmio caçador. Com postura de caçador. Um Grêmio orgulhoso, de peito inflado, confiante; porém austero e com grandeza suficiente para se permitir à auto-crítica.
 
Nem que nessa retomada alguns tiros saiam tortos. Nem que a gente ainda perca um Gre-nal ou outro. Faz parte, é do jogo. O que não faz parte é ver meu Grêmio sendo a caça. Preocupado com o que os jornalistas dirão. Preocupado com os erros do rival.
 
Olha pra dentro, Grêmio. Ri do Mazembe, pra sempre. Mas ri com tua espingarda na mão. Mascando um capim e dando tiro em todo coelhinho que pular – feito um Kidiaba – na tua frente. Ri do Mazembe, mas não usa ele de escudo pra ficar no sofá relembrando o passado. Usa como aprendizado pra quando chegar lá.
 
E só vai chegar lá se, tal qual um caçador, adentrar essa Floresta chamada América e matar todas as presas que aparecerem no teu caminho, uma a uma. E só vai conseguir tal feito se tiver agilidade, talento, boa mira e um pouco de sorte. Mas tudo isso só ajuda se tu, Grêmio, voltar a ser um caçador. Agilidade, talento, boa mira e um pouco de sorte pra uma presa, só vão ajudar a conquistar esparsas e acidentais vitórias inúteis em um Gre-nalzinho aqui e acolá.
 
Saudações azuis, pretas e brancas,
@lucasvon


Colaboração: Uilquer Silva
Fonte: blog GrenalizandoTV
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Ítalo Dorneles

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