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Música para pensar: Oli Jr. e a Milonga Blues

Talvez o leitor estranhe o título dessa postagem: “música para pensar”. Pode ele inclusive argumentar que música é para ouvir e o resto é bobagem. No entanto, mesmo concordando que a experiência sensível da audição é um dos pilares da interação com a arte musical, penso que boa parte do interesse restrito e do repertório limitado (muitas vezes justificado como um ecletismo amorfo) de grande parte das pessoas na atualidade no que se refere à música, deve-se ao ato de apenas “ouvir com os ouvidos”, sem considerar outros aspectos que poderiam fazer parte de uma audição mais enriquecedora.

Nesse caso, porém, minha intenção não é “racionalizar” uma das expressões artísticas menos afeita a qualquer tipo de vínculo limitador com a razão, mas tentar mostrar que diversos exemplos de criação musical podem ser apreciados incluindo a reflexão sobre outros temas que não sejam exatamente a composição musical e a sonoridade.

E um dos grandes exemplos dessa questão que há tempos já queria ter comentado, é o trabalho artístico feito pelo cantor e compositor Oly Jr. com sua Milonga Blues. A primeira vez que ouvi falar do artista, com um atraso considerável, foi em julho de 2009, no Teatro de Arena, quando de sua participação especial no show de gravação do disco ao vivo do Bebeto Alves e os Blackbagual. No cartaz do show que ele faria na semana seguinte no Arena, o anúncio da mescla, nesse projeto musical, da milonga, do blues e do folk, três tradições musicais que sempre me interessaram e que ao ver a possibilidade de serem misturadas, fiquei muito curioso para conferir o resultado.
Naquele mesmo ano de 2009, seria lançado o disco Milonga Blues (depois premiado pelo Açorianos), trazendo 11 canções compostas por Oly Jr. nas quais as sonoridades blueseira e milongueira combinavam-se de forma muito peculiar e criativa. E é a partir desse disco que vou abordar aqui as relações entre o blues e a milonga e também entre o regional e o universal nas composições do artista.

Oly Jr. começou profissionalmente na música a partir do Blues, em 1998. E desta escola musical veio não só a sua consolidação no meio artístico como também uma gama de referências sonoras e culturais preservadas por ele até hoje. No entanto, a cena blueseira não satisfez totalmente o artista que buscava uma marca própria e original e não apenas ser mais um representante local de um estilo musical “estrangeiro”.

Foi a partir daí que o músico começou a incorporar explicitamente na sua criação artística os elementos da música regional que sempre fizeram parte do imaginário cultural onde viveu (o Rio Grande do Sul). Assim, entre Robert Johnson e Muddy Waters intercalaram-se a inventividade milongueira de Bebeto Alves e Vitor Ramil, dois ícones no que diz respeito à renovação do relacionamento com a tradição musical regional.

Se à primeira vista poderia parecer estranha a combinação do blues e da milonga, sentimento logo desfeito ao escutar os acordes das canções de Oly Jr., devemos lembrar da similaridade entre essas duas tradições musicais, relacionada à cultura afro-americana, seja aquela que se desenvolveu à beira do Mississipi nos E.U.A. ou às margens do Rio da Prata na América do Sul.

Utilizando-se da técnica do slide blues e dos acordes milongueiros, Oly fez uma fusão criativa e diversificada entre os dois estilos, sendo que as canções do álbum Milonga Blues transitam do ponto de vista temático e da sonoridade por diferentes combinações, como podemos exemplificar com o paralelo entre o “pacto com o demônio” e a lenda do M’boitatá, que vocês podem conferir na faixa-título abaixo:
No caso da relação entre universal e regional, a combinação entre o blues e a milonga já mostra a maneira heterodoxa que o artista lança mão para reelaborar a sonoridade de característica regional, sem encará-la como algo estanque e digno de culto. Assim, o regional não é um “projeto identitário” e nem uma “tradição inventada”, mas uma matéria-prima móvel e aberta ao intercâmbio cultural.

Desse modo, o regional nas canções de Milonga Blues é uma referência de inventividade e diálogo com outras culturas, o que só pode ter como resultado uma produção artística de cunho universalizante, isto é, de contato e de proliferação de trocas entre contextos e tradições diferentes. Na canção Delta do Jacuí, Oly Jr. expressa bem essa fusão proposta por sua arte: “Eu canto Blues com uma charla e sotaque que é só daqui/ Toco milonga como um blueseiro do delta do Jacuí”.

Assim, um dos grandes méritos, entre tantos outros, da empreitada musical de Oly Jr. é a postura audaciosa em relação a alguns paradigmas culturais que muitas vezes são engessados demais, como o foco no universal ou no regional, como se fossem aspectos excludentes ou o aprisionamento a estilos supostamente herméticos. Nesse caso, o artista é perspicaz em assumir a sua vocação criativa e experimentar intensamente as potencialidades das trocas culturais, desde à sonoridade aos temas das letras das canções.

Atualmente, Oly Jr. prepara o álbum Milonga em Blue (Notas do Delta), com previsão de lançamento até o final do ano e que traz releituras de milongas consagradas na voz de Bebeto Alves e Vitor Ramil a partir de sua levada milonga blues. Junto dele, continuam Os Tocaios, formado por Jaques Trajano (bateria/percussão) e Jacques Jardim (baixo).

Para concluir, e contrariando a proposta incial da postagem, convido vocês a deixar os pensamentos de lado e embalar no lirismo e na melancolia de Poesia Campeira, a canção que encerra o álbum Milonga Blues.

Saudações musicais!

Fonte: blog Música Esparsa
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Ítalo Dorneles

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