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A Independência do Paraguai faz 200 anos - Diário da Liberdade - Mário Maestri

Aqui e Agora – Diário da Liberdade, Galícia −
Segunda, 18 Abril 2011 02:00

Mário Maestri
Em maio de 1810, Buenos Aires rejeitou a substituição do soberano espanhol por Napoleão Bonaparte, rompendo de fato com a administração metropolitana ibérica. Sob o domínio da burguesia comercial do grande porto, a nova junta revolucionária organizou-se para estender de qualquer modo sua autoridade sobre as províncias do antigo vice-reinado do Prata – os atuais Uruguai, Paraguai e Bolívia. Quando a província paraguaia se pronunciou em favor do realismo, a Junta portenha enviou expedição militar para submetê-la, derrotada irremediavelmente em março de 1811.

Nesse então, o Paraguai era dominado por quatro facções político-sociais. O partido espanholista opunha-se à Junta portenha e era favorável ao Conselho da Regência espanhol e à dependência à metrópole. Ele era formado sobretudo por funcionários, comerciantes e grandes proprietários espanhóis que dependiam da metrópole para manter seus privilégios. A facção portenhista, formada principalmente por comerciantes ligados ao comércio com o grande porto, era favorável à manutenção do Paraguai como província de estado dirigido por Buenos Aires.
O partido crioulo, de patriotas autonomistas, era composto pelas famílias de colonizadores proprietárias de terra, dedicadas à agricultura e sobretudo ao pastoreio. Ele opunha-se ao domínio espanhol e portenho e era favorável à independência ou à confederação, na qual o Paraguai mantivesse autonomia real. Os crioulos gostariam de emancipar-se dos pesados tributos portenhos, mas temiam romper totalmente com Buenos Aires, pois sonhavam aprofundar as exportações de erva-mate, tabaco, açúcar, aguardente, madeira através daquele porto.

Pequenos e Médios Camponeses

Os proprietários crioulos defendiam a manutenção e o aprofundamento de relações comerciais, nas melhores condições possíveis, com Buenos Aires. Mesmo se encontrando mais próximos do que os espanholistas dos pequenos proprietários e arrendatários camponeses, os proprietários crioulos possuíam claros antagonismos com esses chacareros, quanto ao controle das terras e da mão de obra. Divergiam com eles quanto às relações desejadas com a oligarquia comercial de Buenos Aires.

Ao igual que os proprietários crioulos, os pequenos e médios agricultores e criadores proprietários e arrendatários eram favoráveis aos direitos de propriedade. Porém, orientando-se suas explorações ao auto-consumo e ao comércio local, as exportações-importações e as relações com Buenos Aires eram-lhes questões estranhas e, até mesmo, ameaçadoras. As disputas na bacia do Prata significariam arrolamento da força de trabalho familiar, com terríveis seqüelas para as suas pequenas e médias explorações. O fim das barreiras alfandegárias e as importações desenfreadas arrasariam a produção doméstica, artesanal e pequeno mercantil.

Os chacareiros sofriam a pressão dos estancieiros crioulos sobre suas terras, gados, direitos de pastagem, mão de obra familiar. Esses camponeses necessitavam de terras para sustentar sua reprodução demográfica e sonhavam com o fim das rendas pagas aos grandes proprietários e dos impostos devidos ao Estado. Os chacareiros falavam guarani e descendiam fortemente das populações nativas. Eles tinham relações de sangue, familiares e territoriais com os peões desprovidos de terra, que trabalhavam eventualmente em suas propriedades.

Liberdade a Ferro e Fogo

A Junta de Maio enviou contra a província rebelde Manuel Belgrano e um pequeno Exército Libertador de uns mil e cem homens. O comandante improvisado era um fino político, sem experiência militar. Em verdade, os revolucionários portenhos não acreditavam na belicosidade paraguaia. Eles também esperavam forte adesão às tropas liberais libertadoras por parte dos crioulos proprietários da província. Entretanto, desde há muito, estes últimos sofriam a forte tributação sobre seus produtos de Buenos, que gozava de direitos monopólicos sobre o import-export paraguaio.

A expedição portenha cruzou as fronteiras da província sem conhecer as adesões prometidas, enquanto seus soldados desertavam. O que obrigou a Manuel Belgrano a reconhecer que, recebido como conquistador, apenas à “fuerza de balas” se imporia sobre os “selvagens paraguayos”. As ordens recebidas por Belgrano da Junta de Buenos Aires eram claras e duras: “[...] que la provincia del Paraguay debe quedar sujeta al Gobierno de Buenos Aires como lo están las Provincias Unidas”. Acompanhavam a expedição alguns poucos paraguaios natos.

Após vencer frágil resistência paraguaia, em 19 de dezembro de 1810, na batalha de Campichuelo, na travessia do rio Paraná, a expedição enfrentou o governador espanhol Bernardo de Velasco , no comando das forças da província, em 19 de janeiro de 1811, na batalha de Paraguarí, próxima da aldeia do mesmo nome, formada em torno de antigo colégio jesuítico, a pouco mais de cem quilômetros da capital.

Vitória Crioula

As forças mostravam-se desequilibradas em favor dos paraguaios, que contavam com uns seis mil soldados, enquanto os portenhos, sem adesões na província rebelde, não alinhavam, então, mais do que dois mil homens. Porém, os paraguaios eram em geral milicianos, ou seja, camponeses arrolados como combatentes, sem experiência militar, e, não raro, apenas armados com os tradicionais laços e boleadeiras guaranis. Ao contrário, as tropas de Buenos Aires constituíam-se de soldados fogueados, com bom armamento, enquadrados por oficiais competentes.

Inicialmente, a sorte sorriu ao enviado portenho e às suas tropas, devido à facilidade com que dispersaram as forças realistas paraguaias e a rapidez com que o governador Velasco e os oficiais espanhóis fugiram para Asunción. Talvez já não confiasse muito sobre a adesão a causa espanhola de seus oficiais e soldados paraguaios. Na capital, apenas correm boatos sobre a possível derrota, os realistas embarcam-se com os familiares e bens em dezessete navios, prontos para partirem para Montevidéu, centro da resistência espanhola e espanholista na bacia do Prata.

A batalha terminou sendo salva pelo esforço dos oficiais e combatentes crioulos e paraguaios. A luta, que durara quatro horas, não teria sido muito violenta, não morrendo mais do que trinta combatentes, no total. Diante da debandada do governador espanhol e de seus oficiais, os heróis do confronto foram sobretudo os crioulos paraguaios Fulgencio Yegros,  Juan Manuel Gamarra e Manuel Atanasio Cabañas.

Sedução Autonomista

Após o fracasso, Manuel Belgrano recuou para o rio Tacuarí, onde, em 9 de março de 1911, após um combate derradeiro, capitulou diante das tropas realistas paraguaias. A batalha foi mais cruenta, com quatorze mortos paraguaios e um número certamente superior de argentinos. Antes de abandonar a província, Belgrano proclamou as vantagens de união com Buenos Aires, em um regime de livre-comércio. Durante sua estada no Paraguai, trocara estreita correspondência com os oficiais patriotas paraguaios e, após o combate de Tacuarí, literalmente se rendera às tropas da província. Entretanto, surpreso, recebeu a proposta de armistício honroso, enviada por Manuel Atanasio Cabañas, grande plantador de tabaco, muito interessado no fim do monopólio colonial do produto e nas exportações por Buenos Aires.

Depois do combate de Tacuarí, as tropas paraguaias e portenhas confraternizaram, para horror do governador e dos espanholistas, que criticaram, ferozmente as concessões desnecessária a Belgrano, irremediavelmente derrotado. Em Assunção, o doutor José Gaspar de Francia, dirigente dos patriotas intransigentes, também recriminou o armistício. Aqueles e este temiam adesão dos crioulos a Buenos Aires. Durante as discussões entre portenhos e crioulos teria maturado a disposição dos oficiais paraguaios, oriundos das ricas famílias crioulas da província, de porem fim à dependência à Espanha. A revolta teria sido marcada para 25 de março, aniversário do mote de Buenos Aires. Portanto, a expedição de Belgrano.

Uma Pátria para os Camponeses

A campanha que resultara satisfatória para a província do Paraguai e, sobretudo, para os militares crioulos, teria pesado fortemente sobre a população camponesa. A mobilização de mais de dez mil paraguaios se dera “a costa de ellos mismos y con total abandono de sus particulares ocupaciones y atenciones”, pois “nunca se les efectuó a paga”, sendo eles despachados pelo governador Velasco sem qualquer retribuição pelos oito meses de serviço militar.

Durante a mobilização, “ganados, caballadas y carrajes, todo se tomaba y se quitaba por fuerza o de grado, y todo se consumía o se perdía sin paga, sin compensación y sin arbitrio”, como reconheceu a Junta governativa paraguaia, mais tarde, em oficio de 26 de setembro de 1811. Realidade que certamente contribuiria para conformar a visão política difusa da população plebéia sobre os malefícios da guerra e os benefícios de uma efetiva independência nacional.

Os combates desprestigiaram fortemente as forças espanholistas, cobrindo ao contrário de prestígio os militares criollos. Após a vitória, o governador espanhol e realista Bernardo de Velasco dissolveu o exército vitorioso, requisitou as armas nas mãos dos cidadãos, concentrou suas forças em Asunción. Nesse momento, temia sobretudo a ação de portenhistas e autonomistas paraguaios, os últimos sob a direção do capitão Pedro Juan Caballero, de ilustre família crioula;  do capitão espanhol mas patriota Juan Valeriano Zeballos e do doutor José Gaspar de Francia, advogado de grande prestígio.

Conta a tradição que o doutor Francia,  filho de mãe de velha cepa paraguaia e pai de origem luso-brasileira desconhecida, ao discutir a orientação a ser tomada diante da ofensiva portenha, colocara sobre a mesa duas pistolas, segundo ele, uma para combater a Espanha e a outra para dar a luta a Buenos Aires! E não se tratava de patriotada, nascida da exaltação bélica passageira – por longos anos, o advogado culto e de corpo franzino comandaria, com mão de ferro –  contra espanholista, portenhos e crioulos – a luta dos patriotas autênticos e das classes plebéias pela independência política e econômica da ex-província guarani.

Mário Maestri, 62, é historiador e professor do Curso e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF, RS. E-mail: maestri@via-rs.net

Bibliografia consultada:
ANDRADA E SILVA, Raul. Ensaio sobre a Ditadura do Paraguai: 1814-1840. São Paulo: Coleção Museu Paulista, 1978.
CHAVES, Julio César. El Supremo Ditador: biografia de José Gaspar de Francia. 5 ed. Asunción: Carlos Schauman, 1985. pp.98
DEMERSAY, Alfred. “El doctor Francia, Dictador del Paraguay.” RENGGER; CARLYLE; DEMERSAY. El doctor Francia. Asunción: El Lector, 1987. p. 277
GARAY, Blas. El comunismo de las Misiones; La revolución de la Independencia del Paraguay. Asunción: Instituto Colorado de Cultura, 1975.
HEINZ, Peters.  El sistema educativo paraguayo desde 1811 hasta 1865. Asunción: Instituto Cultural Paraguayo-Alemán, 1996.
RIVERA, Enrique. Jose Hernandez y la Guerra del Paraguay. Buenos Aires: Colihue, 2007.
WHITE, Richard Alan. La primera revolución popular en America: Paraguay (1810-1840). 2 ed. Asunción: Carlos Schauman, 1989.

Fonte: Blog do Mario Maestri no Café História
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