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Entrevista a O NACIONAL - Breve história do Rio Grande do Sul



A Visão do Rio Grande do Sul do Historiador Mário Maestri Mário Maestri, 62, rio-grandense de Porto Alegre, acaba de lançar pela UPF Editora (www.upf.br/editora), uma Breve história do Rio Grande do Sul: da Pré-história aos dias atuais. Em um grosso volume, de 465 páginas, o historiador apresenta sua visão geral da história de nosso Estado, de seus primeiros dias até o fim do governo Yeda Crusius. Mário Maestri, colunista de O NACIONAL, onde escreve todas as terças-feiras, revelou-nos que prepara esse seu livro sobre o passado sulino há quatorze anos. Ou seja, desde 1996, quando prestou concurso na UPF para as cadeiras referentes à história do Rio Grande do Sul no curso de Graduação e passou a colaborar para a fundação do Programa de Pós-Graduação em História Regional da UPF. Apresentado nos últimos dias da feira de Porto Alegre, o livro foi de longe o mais vendido da barraca da UPF. A seguir, a entrevista concedida por Mário Maestri a O NACIONAL.

O NACIONAL: Professor, inicialmente, uma questão menor. Não há uma contradição entre o título do seu livro, uma Breve história do Rio Grande do Sul, e o volume de quase quinhentas páginas!

Mário Maestri: Um amigo baiano, o historiador J.J. Reis, me assinalou o paradoxo do título em um livro de mais de 460 páginas de texto. E isso que não foi colocada uma cronologia final e ilustrações, como previsto inicialmente! Trata-se, porém, em todos os sentidos, de uma leitura muito sintética do nosso passado. Em um sentido lato, o Rio Grande do Sul já tem uns 380 anos de história política, se tomarmos como ponto referencial a fundação das Missões do Tape, deixando de lado a sua pré-história e a história das suas comunidades nativas americanas, abordadas rapidamente no texto. Trata-se, em definitivo, de uma enorme massa de fatos – e conhecimentos a nossa disposição – que, para um enfoque mais sistemático, mesmo sintético, exigiria não um, mas vários volumes. Em verdade, há diversas dimensões da história do passado sulino que não abordamos, por opção, nem minimamente, como a história da cultura, com destaque para a literatura, a música, a arquitetura, temas que nos encantam e sobre os quais contamos já trabalhos gerais e particulares excelentes, mas que fomos, infelizmente, obrigados a não incluir, para não extrapolar os objetivos e as razões particulares da produção desse livro.

O NACIONAL: Professor Mário Maestri, qual foram os objetivos e as razões da escritura de Breve história do Rio Grande do Sul: da pré-história aos dias atuais?

Mário Maestri: Há razão particular e geral. Venho escrevendo este livro há quase quatorze anos, desde que ingressei na UPF, a convite do professor Fernando Camargo, que não se encontra mais em Passo Fundo, para lecionar no Curso de Graduação em História e ajudar a organização o Programa de Pós-Graduação em História, o primeiro do interior do Rio Grande. Prestei concurso para as cadeiras referentes à História do Rio Grande do Sul. Portanto, desde 1996, me predispus a preparar para meus alunos uma interpretação sintética sobre a história sulina, que abarcasse todo o período da disciplina. Algo que correspondesse aos dois semestres de estudo. Um trabalho sintético, sem ser telegráfico e simplista. Um projeto relativamente ambicioso pois, como proposto, o largo arco cronológico de nosso passado exige que os historiadores que se voltem sobre ele, especializem-se em algumas áreas e períodos.

O NACIONAL: Mas o senhor esperou, até agora, para publicar o livro?

Mário Maestri: Não, pois teria deixado a “ver navios” talvez meio milhar de alunos com quem trabalhei nesse período. Em forma geral, o material reunido agora sob forma de livro unitário, foi inicialmente apresentado aos alunos em quatro cadernos, referentes à “ocupação do espaço”, ao “Império”, à “República Velha” e ao período que vai da Revolução de 1930 até os dias atuais. Esses cadernos foram a seguir transformados em quatro pequenos livros que, corrigidos e ampliados, resultaram, finalmente, na atual Breve história do Rio Grande do Sul. Essa foi a razão particular. Como razão geral está minha disposição, desde o início de minha carreira como historiador, ao escrever tese de doutoramente sobre a história da escravidão sulina, em fins dos anos 1970, de realizar um estudo geral e sistemático do passado sulino, para melhor compreender suas dinâmicas profundas, que pesam tão fortemente sobre os dias de hoje.

O NACIONAL: Professor, qual foi o período nesse estudo geral do passado rio-grandense que lhe deu mais trabalho e lhe despertou maior paixão? Foram necessárias investigações profundas e demoradas?

Mário Maestri: Breve história do Rio Grande do Sul: da Pré-História aos dias atuais é trabalho de síntese, como proposto. Há períodos do passado sulino, como o período colonial, a sociedade escravista, o mundo colonial-camponês, que investiguei direta e sistematicamente. Porém, havia períodos que, antes, jamais abordara em forma detida, como a República Velha, o Estado Novo, o período pós-1964, ainda que, este último, já fazia parte de minha vida, como adolescente, jovem e adulto. Minhas aulas no curso de graduação e, devido a elas, a preparação do livro, forçaram-me à farta leitura de documentação e bibliografia especializadas desses períodos. No texto, procurei assinalar alguns autores nos quais me apoiei substancialmente, já que, devido aos objetivos do trabalho, optei, ao iniciá-lo, pelo não uso de notas de rodapé. O que, confesso, creio não ter sido a opção mais pertinente. Nas quarenta páginas finais, encontram-se os trabalhos nos quais apoiei substancialmente minha leitura e interpretação. Se há originalidade, nessa minha leitura, é a interpretação geral referente à totalidade do processo.

O NACIONAL: Essa sua viagem pelo passado sul-rio-grandense reservou-lhe surpresas?

Mário Maestri: Certamente, diversas e, algumas, bastante grandes! Por exemplo, deparei-me com a enorme desigualdade da abordagem pela historiográfica regional dos diversos períodos de nosso passado. A historiografia sobre a República Velha é muito rica e precisa, o mesmo não se podendo dizer sobre o Império, sobretudo no referente à história política, que apenas agora começa a ser desbravada com qualidade. Paradoxalmente, a história do RS dos anos 1937 a 1980 não é igualmente territórios visitado amiúde. Impressiona não termos uma história digna do nome do governo de Flores da Cunha, de Leonel Brizola, da Legalidade, dos governos regionais no período ditatorial. E esses são apenas alguns buracos negros de nossa historiografia, que, com o grande número de programas de pós-graduação em história tem produzindo uma enorme quantidade de excelentes trabalhos, sobre os mais diversos temas, alguns deles, porém, verdadeiramente anódinos!

O NACIONAL: E quais seriam as principais interpretações obtidas pelo senhor na redação de Breve história do Rio Grande do Sul: da Pré-História aos dias atuais?

Mário Maestri: Apesar dos quase quatorze anos escrevendo essa Breve história, é claro que conjuntamente com outras atividades e produções, trata-se ainda de um esboço de análise. Creio porém que ela me permitiu começar a compreender quais as perguntas corretas para a obtenção das respostas necessárias. Porém, destacaria alguns pontos fundamentais nessa investigação, como o caráter indiscutivelmente escravista do passado colonial e imperial sulino; o pouco peso da população gaúcha ou seja, do campeiro livre, no passado sul-rio-grandense escravista; a enorme determinação da história imperial sulina pela atração platina, sobretudo devido aos interesses dos grandes criadores sulinos escravistas na Banda Oriental; a caráter revolucionário (passivo, no sentido gramsciano) da república castilhista; o processo de subalternização do Rio Grande do Sul, após a derrota da resistência de Flores da Cunha e de Leonel Brizola. Nessa leitura me deparei com a indiscutível incapacidade das chamadas classes dominantes regionais de se transformarem nos paladinos de nossa sociedade, o que apontaria para a necessidade de um novo bloco social, regional e nacional, creio eu sob a hegemonia do mundo do trabalho, para superar as fortes contradições regionais que se apresentam já historicamente.

O NACIONAL. Professor, esse é um livro definitivo?

Mário Maestri: De modo algum. Por um lado, a história da sociedade sulina segue, determinando e determinada pelos tempos tensos e conflituosos que vivemos. Por outro, a historiografia sul-rio-grandense avança cada vez mais qualificada e especializada, como assinalado. Gostaria sobretudo de que esse livro fosse um manual de uso, que ajudasse, para mim e para os eventuais leitores, o acompanhamento desta realidade. Se tudo correr bem, gostaria de propor uma nova versão, corrigida e ampliada (não muito) para 2015!

Fonte: Café História
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Ítalo Dorneles

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1 Comentários:

  1. Mário,
    Poderias me dizer como consigo esta coleção? Esta dificil de encontrar aqui. Queria um volume 2 que trata do Tropeirismo.
    Obrigada,
    Miriam Porciuncula
    mimiartes@gmail.com

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