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Após sanções, Irã anuncia que vai manter enriquecimento de urânio



O Irã anunciou nesta quarta-feira (9) que vai continuar seu programa de enriquecimento de urânio, apesar das novas sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança da ONU. "Nada vai mudar. A República Islâmica do Irã vai manter suas atividades de enriquecimento de urânio", disse Ali Asghar Soltanieh, enviado do Irã na AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica, da ONU), com sede em Viena, logo depois da aprovação da medida na ONU em Nova York.

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, também rejeitou as sanções aprovadas hoje. Para ele, as sanções "não valem um centavo" e devem ir "para o lixo".

O também iraniano Ali Asghar Soltanieh, embaixador de Teerã na AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica, da ONU), afirmou que o país não interromperá suas operações de enriquecimento de urânio, apesar da nova série de sanções impostas à República Islâmica.

“[Os Estados Unidos, a Inglaterra e a França, que ocupam assentos permanentes no conselho, atuam com] falta de honestidade”, disse embaixador do Irã na ONU, Mohammad Khazaei.

Outra autoridade iraniana a rejeitar o acordo foi porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Ramin Mehmanparast. "Isso [as sanções] tornará a situação mais complicada."

O Conselho de Segurança da ONU impôs no início da tarde de hoje novas sanções ao programa nuclear do Irã, que parte do Ocidente suspeita estar voltada para o desenvolvimento de armas atômicas. Foram 12 votos a favor das sanções e dois contra (do Brasil e da Turquia). O Líbano se absteve.

A embaixadora brasileira na ONU, Maria Luiza Ribeiro Viotti, justificou a posição do governo Luiz Inácio Lula da Silva. "Não vemos as sanções como um instrumento efetivo. Com toda a certeza, vão provocar o sofrimento do povo do Irã e favorecer os que não querem que o diálogo prevaleça", afirmou.

Para a embaixadora, "experiências passadas na ONU, em especial no caso do Iraque, mostram que a espiral de sanções, ameaças e isolamento pode ter como resultado trágicas consequências".

O presidente americano, Barack Obama, disse que as novas sanções aprovadas contra o Irã não fecharão as portas da diplomacia à República Islâmica. Já a Turquia teme que as novas sanções comprometam uma solução diplomática relacionada ao polêmico programa nuclear do Irã, segundo declarações do ministério das Relações Exteriores, em Ancara.

As potências ocidentais queriam medidas mais duras, inclusive contra o setor energético iraniano, mas China e Rússia conseguiram diluir as punições previstas no documento de dez páginas.

A resolução prevê restrições a mais bancos iranianos no exterior, caso haja suspeita de ligação deles com programas nuclear ou de mísseis. Estabelece também uma vigilância nas transações com qualquer banco iraniano, inclusive o Banco Central.

Além disso, ela amplia o embargo de armas contra o Irã e cria entraves à atuação de 18 empresas e entidades, sendo três delas ligadas às Linhas de Navegação da República Islâmica do Irã, e as demais vinculadas à Guarda Revolucionária.

A resolução estabelece também um regime de inspeção de cargas, semelhante ao que já existe em relação à Coreia do Norte.

Paralelamente à resolução, 40 empresas serão acrescidas a uma lista pré-existente de empresas com bens congelados no mundo todo, por suspeita de colaboração com programas nuclear e de mísseis do Irã.

A nova lista negra inclui um indivíduo chamado Javad Rahiqi, diretor de um centro de processamento de urânio. Ele terá bens congelados e será proibido de viajar ao exterior.

Foco de acaloradas discussões de última hora, a nova lista que surgiu na manhã de terça-feira continha 41 empresas, inclusive dois bancos. Ao final do dia, a China exigia a exclusão de um deles, o Banco de Desenvolvimento das Exportações do Irã.
Suspeitas do Ocidente

A relação das potências ocidentais com o Irã se deteriorou com rapidez após a CIA (agência de inteligência dos EUA) detectar por satélite a existência da usina de enriquecimento de urânio escondida dentro de uma montanha próxima da cidade sagrada xiita de Qom em setembro de 2009.

A descoberta gerou consequências imediatas. A AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica, da ONU) aprovou resolução que condenou o Irã por uma arrasadora maioria e pela primeira vez em três anos, em 27 de novembro do ano passado. Dos 35 países membros da agência nuclear da ONU, 25 votaram a favor da resolução, três (Cuba, Venezuela e Malásia) contra e seis, entre eles o Brasil, se abstiveram. Pesou ainda o fato de Teerã não cooperar com a agência, sonegando informações e visitas-surpresa dos agentes da AIEA.

O regime iraniano teve de admitir a construção da nova instalação, mas, apesar da condenação, anunciou a construção de dez centrais nucleares, além de indicar a redução ao mínimo de sua colaboração com a agência da ONU.

A desconfiança do Ocidente começou anos antes da revelação da usina em Qom. Em 2002, o Conselho Nacional de Resistência do Irã (de oposição) havia revelado que o país construía uma instalação nuclear subterrânea secreta em Natanz, denúncia ratificada pela AIEA no ano seguinte. Ainda em 2003, pressionado pelo Ocidente, o Irã anunciou a suspensão do enriquecimento de urânio.

No ano seguinte, a agência da ONU revelou a construção de túneis nas montanhas ao lado da usina de Esfahan, onde o urânio seria preparado para ser enriquecido. Mais dois anos se passaram até o próprio presidente Mahmoud Ahmadinejad anunciar a retomada do enriquecimento de urânio. E mais do que isso: iniciou os testes de centrífugas de nova geração (como as do tipo "P2"), para o enriquecer o urânio mais rapidamente e em maior quantidade.

Em dezembro de 2009 -- já depois de a AIEA condenar o Irã -- o Conselho Nacional de Resistência divulga novo relatório em que eleva de 14 para 19 o número de bunkers que esconderiam bases militares nucleares.

Em março deste ano, o jornal "New York Times" revelou que o Irã estava construindo pelo menos duas novas instalações nucleares secretas em montanhas, para protegê-las de eventuais ataques.

* Com agências internacionais
do Uol Internacional
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Ítalo Dorneles

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