Halloween Costume ideas 2015

Blog do Dorneles

Latest Post



Queridos amigos leitores...

Estamos passando por uma remodelação no blog, a fim de melhor distribuir as matérias e facilitar a leitura daqueles que acompanham. Ainda essa semana estaremos finalizando e reativando as postagens da página.

Obrigado pela compreensão.

Att,
Ítalo Dorneles


Os Jogos Rio 2016 vão tomar as ruas de Canguçu e de todo o Brasil. A partir do dia 3 de maio, o Revezamento da Tocha Olímpica vai percorrer o país. Em 95 dias, 329 cidades das cinco regiões receberão a visita da Chama Olímpica. A rota do Revezamento da Tocha Olímpica ligará o Brasil de norte a sul, envolvendo a população com os Jogos e levando o espírito Olímpico a todos os cantos do país.

No município a Chama Olímpica passará no dia 6 de julho, reunindo as várias instituições de ensino, comerciais, esportivas e culturais da cidade ao longo de todo trajeto que corresponde da Avenida 20 de Setembro à Praça Dr. Francisco Carlos dos Santos, onde estará situado o palco de apresentações em comemoração ao evento.

A nadadora Canguçuense Luiza Rios, medalhista de ouro em várias competições é uma das condutoras selecionadas para conduzir a chama olímpica no município. Luiza tem 21 anos, mora em Canguçu com seus pais Maribel Rios e José Joaquim Braga Rios.

Pratica natação desde os 6 anos de idade e por incentivo do seu treinador Jotape, em 2015 começou a competir em eventos esportivos na modalidade natação paraolímpica. Sua rotina divide-se em treino à tarde duas vezes por semana e estudo à noite. A nadadora está no 8º semestre da faculdade de Direito.

Seu treinador que mora no Rio de Janeiro vem de uma à duas vezes por mês para realizar os treinos técnicos com a nadadora que tem o apoio da rede de farmácias Associadas e da empresa do ramo exportação e importação de produtos, Condorfoods.
Luiza participou das etapas regionais do Circuito Brasil Caixa Loterias e de todas as fases nacionais em 2015.

Algumas informações gerais:

•    O Revezamento da Tocha Olímpica Rio 2016 vai percorrer 329 cidades do Brasil em 95 dias, alcançando 90% da população do país em todos os 26 estados do Brasil, além do Distrito Federal.

•    #ChamaGeral é a campanha digital de engajamento do Comitê  Rio 2016 para o Revezamento da Tocha Olímpica. As ações serão realizadas no ambiente digital com o objetivo de mostrar a essência, o calor e a diversidade dos brasileiros. A ideia é atrair os brasileiros para a rua, mostrar a multiplicidade cultural, natural e popular do povo.

•    Predominantemente branco, o uniforme dos condutores da Tocha Olímpica representa a paz e a união entre as diferentes culturas regionais e os povos do mundo, presentes na diversidade da população brasileira. O amarelo simboliza a Chama Olímpica e, ao lado do verde, homenageia as principais cores da bandeira do Brasil.

•    Serão produzidas cerca de 65 mil peças, entre uniformes para condutores, corredores de apoio e equipe de trabalho.

•    A tradicional cerimônia de acendimento da Chama Olímpica na cidade grega de Olímpia, berço dos Jogos da Antiguidade, será realizada em 21 de abril ao meio-dia.

•    O Revezamento da Tocha Rio 2016 no Brasil começará por Brasília, no dia 3 de maio.

•    A Chama percorrerá cerca de 20.000 quilômetros por estradas brasileiras e 10.000 milhas aéreas no trecho ao Norte e Centro-Oeste, entre Teresina e Campo Grande.

•    A viagem se encerrará no dia 5 de agosto de 2016, quando o último condutor da Tocha acenderá a Pira Olímpica durante a Cerimônia de Abertura dos Jogos, no Estádio do Maracanã.

•    Serão 12.000 condutores da Tocha. Ao longo dos próximos meses, o Comitê Organizador dos Jogos e os Patrocinadores Oficiais do Revezamento da Tocha Olímpica Rio 2016, Coca-Cola, Nissan e Bradesco, anunciarão os demais selecionados que terão o privilégio de conduzir a Tocha Olímpica.


Fonte: site da Prefeitura Municipal de Canguçu


A Prefeitura Municipal de Canguçu publicou nesta terça-feira (10) o edital de abertura para o preenchimento de vagas no Poder Executivo. Os cargos são destinados para os níveis fundamental, médio/técnico e superior. Os salários variam de R$ 843,27 a  R$ 13.197,75. 

As inscrições serão somente pela internet, no site da Objetiva Concursos (www.objetivas.com.br). Se o candidato não possuir acesso à internet, será disponibilizado um computador para realização da inscrição no Prédio Central da Prefeitura, localizado na Praça Dr. Francisco Carlos dos Santos, nº 240, Sala de
Reuniões, com entrada pela rua Júlio de Castilhos, de segunda a sexta-feira, em dias úteis, das 09h às 11h30 e das 13h às 16h.

Segundo o prefeito Gerson Nunes, este novo concurso será para suprir vagas existentes de acordo com a folha de pagamento, além do cadastro de reserva para que na medida de haver vagas, realizar nomeações. Esta é mais uma forma do Poder Público valorizar a população, sendo de grande valia a capacidade e conhecimento de cada indivíduo, que agrega o trabalho do Executivo. 



Vagas

O edital de abertura n° 001/2016 possui vagas para as funções de: Advogado, arquiteto, auxiliar de educação infantil, auxiliar de enfermagem, auxiliar em saúde bucal, contador, cozinheiro, enfermeiro, engenheiro civil, engenheiro eletricista, geólogo, médico de atenção básica, médico de estratégia de saúde da família, médico ginecologista e obstetra, médico pediatra, médico pediatra suporte, médico suporte 10h, monitor de transporte escolar, motorista, odontólogo, odontólogo de atenção básica, odontólogo de estratégia de saúde da família, odontólogo especialidade cirurgia buco-maxilo-facial, odontólogo especialidade endodontia, odontólogo especialidade periodontia, oficial administrativo, operador de máquinas, operário, pedagogo, pedreiro, professor - anos iniciais do ensino fundamental, professor - educação especial, professor - educação infantil, servente, técnico em contabilidade, técnico em informática, técnico em segurança do trabalho e tesoureiro.

Inscrições

Os interessados deverão realizar as inscrições a partir desta terça-feira (10) até às 23h do dia 05 de junho de 2016. As taxas serão de R$ 16,84 a R$ 84,20. O pagamento pode ser feito até o dia 06 de junho, em qualquer agência bancária ou terminal de autoatendimento. 

A isenção da taxa de pagamento é até esta quinta-feira (12).

Leia atentamente o edital n° 001/2016, que está em anexo. Faça sua inscrição clicando aqui.

O anexo foi atualizado no dia 18 de maio, às 9h, em consequência da retificação do edital referente ao vencimento do cargo de professor- educação especial. 


Fonte: site da Prefeitura Municipal de Canguçu

Segundo o cientista político André Singer, a quebra da hegemonia da esquerda no plano cultural e a resistência aos programas sociais do lulismo e à resultante ascensão social estão na raiz das ondas conversadoras que prosperam atualmente no Brasil
por Luís Brasilino

DIPLOMATIQUE – Em debate na USP realizado em agosto, o senhor identificou que a esquerda brasileira perdeu a hegemonia no plano cultural que possuía nas décadas de 1960 a 1980. Como se deu esse processo?

ANDRÉ SINGER – Parto de artigo famoso do professor Roberto Schwarz1 em que ele sugere a ideia de que houve um fenômeno inesperado depois do golpe de 1964: em lugar de uma retração da cultura de esquerda, tivemos um período de expansão e até de hegemonia cultural – não política − da esquerda. Fiquei com isso na cabeça e me ocorreu, embora nunca tenha podido escrever a respeito, que talvez essa hegemonia cultural tenha persistido até o final dos anos 1980. Isso porque, passado o período mais duro da repressão, que começou com o AI-5 em dezembro de 1968 e foi até a chamada abertura com o [Ernesto] Geisel em 1974, essa hegemonia cultural da esquerda voltou. Lembro bem que, no final dos anos 1970 e começo dos 1980, praticamente não se encontravam pensadores, articulistas e ideólogos que tomassem posições abertamente de direita. Estávamos sob hegemonia política da direita, mas no plano cultural a hegemonia da esquerda continuou e até se acentuou no final dos anos 1970, quando se iniciou o que talvez tenha sido, por sua capilaridade, o maior movimento grevista ocorrido no Brasil. Esse movimento de base gerou o que chamo de “onde democrática”, aproximadamente de 1978 a 1988, com uma profusão de movimentos organizados configurando uma democratização da sociedade por baixo, e isso acentuou ainda mais a hegemonia cultural da esquerda. Paralelamente, no final dos anos 1970, começo dos 1980, tem início no mundo a onda neoliberal.

DIPLOMATIQUE – E o Brasil estava em descompasso com essa tendência.

ANDRÉ SINGER – O neoliberalismo no Brasil foi retardado por essa conjuntura, cujo emblema maior talvez tenha sido a campanha das “Diretas já”. Só que, no plano mundial, começou a crescer o neoliberalismo, um fenômeno ideológico que o [historiador inglês] Perry Anderson classifica como o de maior sucesso de toda a história. Ou seja, não é apenas um conjunto de políticas governamentais, mas uma concepção de mundo que ganhou corações e mentes. Finalmente, entre o fim dos anos 1980 e começo dos 1990, o neoliberalismo entrou no Brasil.

DIPLOMATIQUE – A eleição de 1989 é um marco dessa inflexão?

ANDRÉ SINGER –  É um marco desse processo, que depois foi aprofundado pelas políticas do governo Fernando Henrique Cardoso. Mas não é só isso, porque estamos falando de hegemonia cultural. O que acontece é que os valores de mercado, de ascensão individual, de competição e os valores ligados a uma intensa mercantilização dos espaços públicos começaram a se tornar correntes, sobretudo na chamada classe média tradicional e depois em estratos médios mais amplos. Então, passamos a assistir ao surgimento de manifestações ideológicas, com articulistas, autores de livros e até artistas, produtores influentes, que defendiam abertamente esses pontos de vista, algo que não se encontrava até meados dos anos 1980. Assim, a presença quase total que a esquerda tinha no plano da cultura foi quebrada e passou a haver uma competição na qual continua existindo uma esquerda, mas a direita é crescente. Com isso, não quero dizer que ela necessariamente vai se tornar hegemônica, mas passou a haver uma competição.

DIPLOMATIQUE – Qual é o papel das Igrejas nesse processo?

ANDRÉ SINGER – Esse é um fator extremamente importante, porque o Brasil é um país onde o catolicismo era e continua sendo muito forte. É visível que a inflexão da Igreja Católica para a esquerda nos anos 1960 e 1970 impactou muito no sentido dessa hegemonia cultural. A influência da Igreja Católica no Brasil era enorme, continua sendo muito grande, e, quando ela virou para a esquerda, arrastou camadas extensas da sociedade. Nos anos 1980, a onda neoliberal influenciou a Igreja com uma virada para a direita que começou com o papa João Paulo II e lentamente foi entrando no Brasil. Isso é muito importante para entender a presença da hegemonia cultural da esquerda e depois sua quebra. A esse fator se soma um segundo, que é a avalanche pentecostal e neopentecostal no Brasil. O crescimento das confissões evangélicas parece ser compatível com a proliferação de uma ideologia mais conservadora. É difícil fazer afirmações categóricas, porque esse universo é muito diversificado, mas a impressão que tenho é que as confissões pentecostais e neopentecostais tendem a favorecer uma percepção de que a melhora das condições de vida depende do esforço individual, não de movimentos coletivos.

DIPLOMATIQUE – O senhor também identifica outras ondas conservadoras que extrapolam o plano cultural, especialmente entre a classe média paulistana. Quais são elas?

ANDRÉ SINGER – Em termos de classe propriamente, não há dúvida de que esse segmento tem uma propensão conservadora por razões materiais. Trata-se de uma parcela dentro de uma sociedade muito desigual como a brasileira, que tem privilégios, que tem o que perder, portanto, há motivos para uma inclinação no sentido da manutenção da situação que a beneficia. Porém, o que aconteceu é que uma parte desse segmento, que estou chamando de classe média tradicional, entrou e participou da frente antiditadura durante os anos 1970 e 1980, gerando uma simpatia por posições mais à esquerda. Isso explica também certa entrada que o PT chegou a ter nesses segmentos no começo de sua trajetória. Essa situação mudou radicalmente com o surgimento do lulismo, um processo dos últimos dez anos.

DIPLOMATIQUE – É desse realinhamento que o senhor trata em seu novo livro?2

ANDRÉ SINGER – Tem a ver, mas nesse caso é um fenômeno particular dentro do realinhamento: a classe média tradicional se fechou em bloco contra as políticas sociais promovidas pelo lulismo. Parece ser uma reação ao processo de ascensão social de setores que antes estavam estagnados numa condição de muita pobreza. É um fenômeno muito recente e não está bem pesquisado, mas a gente vê, ouve conversas, lê no jornal essa reação à presença de pessoas de renda mais baixa nos aeroportos. O que isso significa? Esses espaços eram exclusivos; só pessoas com renda mais alta podiam frequentar.

DIPLOMATIQUE – Sintomático disso são as reclamações por parte das classes média e alta sobre uma crescente dificuldade de encontrar empregados domésticos.

ANDRÉ SINGER –  É, isso é o elemento que coloquei no meu livro Sentidos do lulismo. Chama muito minha atenção também porque houve realmente uma mudança no trabalho doméstico, com elevação da renda e melhora das condições de trabalho. Isso tem a ver com o fato de que caiu o desemprego e entraram em cena programas sociais que criaram um piso, dando a essas pessoas a possibilidade de escolher não trabalhar por menos de certa quantia, o que é extremamente importante se considerarmos que existem cerca de 6 milhões de empregados domésticos no Brasil. É um elemento desse conjunto de mudanças que está ocorrendo no Brasil e, aparentemente, há uma reação a isso por parte da classe média. Há também uma terceira onda, que é ainda menos conhecida e mais recente: um neoconservadorismo em uma parcela bem pequena do conjunto das 30 milhões de pessoas que ultrapassaram a linha de pobreza nos anos Lula, um segmento que deu um passo além, subindo não um, mas dois ou três degraus. Um fator disso tem a ver com o medo da mudança. Essas pessoas teriam certa consciência de que o processo de ascensão não durará para sempre e, portanto, não seriam simpáticas a políticas para promover a ascensão de novas camadas, pondo em risco aquilo que já ganharam. Outro elemento desse neoconservadorismo é que, às vezes, se nota entre aqueles que sofreram um processo de ascensão social uma antipatia com os programas sociais. É curioso. É como se essas pessoas se “dessolidarizassem” daquelas que ainda precisam da transferência de renda, compartilhando uma impressão de que o processo de ascensão social decorre do esforço individual, e não de políticas coletivas. Um terceiro fator, mais específico da cidade de São Paulo, é a questão do empreendedorismo. Isto é, há uma quantidade de pessoas envolvidas com pequenos negócios e tentando melhorar de vida por meio deles. Bom, esse pequeno empreendedor tem uma tendência conservadora, justamente porque ele só conta consigo mesmo, diferentemente de um assalariado.

DIPLOMATIQUE – O que organiza esse movimento conservador? Não há um partido que canalize essas ondas. Pode-se dizer que a mídia cumpre esse papel?

ANDRÉ SINGER – Essas ondas conservadoras não estão sendo expressas no plano da política, sobretudo da política partidária. Por quê? Porque nesse ponto entra em jogo outro fator, que é o realinhamento eleitoral. À medida que o lulismo obteve uma maioria no país, a oposição foi obrigada a jogar com as regras do jogo impostas por esse movimento. Essa é a principal consequência do realinhamento. Ele fixa uma agenda, por isso o lulismo é tão importante, porque determinou uma agenda no país, e esta é, fundamentalmente, a redução da pobreza. Sendo essa a agenda, a oposição não pode expressar nitidamente o ponto de vista de sua base social, porque assim ela perderia as eleições. Essa é a razão pela qual o candidato do PSDB em 2010, o ex-governador José Serra, propôs duplicar o número de pessoas atendidas pelo Bolsa Família, em lugar de combatê-lo, como gostaria a classe média tradicional. Desse modo, ocorre um fenômeno curioso: há um crescimento da ideologia conservadora na sociedade, mas ela não encontra expressão na política. Quanto aos meios de comunicação, nós precisamos entender o seguinte: o conservadorismo no Brasil é muito antigo e tem um lastro histórico profundo. O diferente nessa história foi o período de hegemonia cultural da esquerda. Agora, estamos voltando para um momento anterior, mas que é de uma certa normalidade, porque o Brasil tem esse lastro conservador. Os meios de comunicação têm um papel nisso? Certamente. Mas é preciso também considerar que a análise dos meios de comunicação não deve ser feita em bloco; eles não são uma coisa só, há certa heterogeneidade. [Porém,] Partes do sistema de mídia certamente compõem essa primeira onda conservadora que está quebrando a hegemonia cultural da esquerda.

DIPLOMATIQUE – Como o lulismo, um fenômeno tão contraditório, opera nessa chave?

ANDRÉ SINGER –  O lulismo é uma nova síntese que junta elementos conservadores e não conservadores. Por isso é tão contraditório e difícil de entender. O lulismo pegou um apreço pela manutenção da ordem que tem ressonância nos setores mais pobres da população. Nesse ponto, retomo a questão de que, na formação social brasileira, se tem um vasto subproletariado que, por estar aquém da condição de proletário, não tem como participar da luta de classes, a não ser em situações muito especiais e definidas. Assim, o que o lulismo fez foi juntar esse apreço pela ordem com a ideia de que é preciso mudar. Que tipo de mudança? A redução da pobreza por meio da incorporação do subproletariado ao que chamo de cidadania trabalhista. Desse modo, o lulismo propõe transformações por meio de uma ação do Estado, mas que encontra resistência do outro lado. Basta prestar atenção no noticiário para ver como o embate político está posto o tempo todo nas decisões econômicas, no braço de ferro a cada momento em que se precisa baixar os juros, aumentar o gasto público ou controlar o câmbio. Essas decisões passam por um tremendo embate político que não está nas ruas; é preciso ler o jornal com atenção para perceber. O lulismo propõe mudanças, mas sem radicalização, sem um confronto extremado com o capital e, portanto, com a manutenção da ordem. Nesse sentido, é um fenômeno híbrido, que captura um tanto desse conservadorismo. Por isso uma análise mais simplista e dicotômica não consegue dar conta da complexidade da situação que estamos vivendo.

DIPLOMATIQUE – Em 2010, o senhor deu uma entrevista destacando a importância de o PT se manter na esquerda para politizar esse subproletariado.3 É isso que pode frear essas ondas conservadoras?

ANDRÉ SINGER – O Brasil ainda tem uma herança daquilo que chamei de grande onda democrática dos anos 1980. Que herança é essa? Primeiro a Constituição, com mecanismos de participação direta e, além disso, dispositivos efetivos de organização da sociedade. Grandes movimentos sociais se organizaram e uma parte deles segue atuando na sociedade, enquanto novos surgem, embora também seja possível identificar certos movimentos que declinaram. O Brasil ainda tem energia organizativa de baixo para cima. Segundo pesquisas que li, [essa energia] foi incrementada pelo Bolsa Família. Principalmente em comunidades do interior, as mulheres estão adquirindo certa autonomia a partir do momento em que têm um cartão, não dependem de mais ninguém e recebem uma quantia de dinheiro por mês, recurso a que elas nunca tiveram acesso e que é, sobretudo, constante, com o qual elas podem contar. Há indicações de que essas mulheres estão se organizando, por exemplo, em cooperativas, empreendimentos igualitários de mudança de sua condição de vida. Tudo que seja organização da sociedade pela base ajuda a frear essas ondas conservadoras. Não há motivo para imaginar que essa onda conservadora venha de maneira avassaladora, que não há nada do outro lado. Sobre a questão do PT, gostaria de observar que, como eu disse em 2010, continuo acreditando que este momento é especial, porque se abriu uma janela de oportunidade para o diálogo da esquerda com os segmentos mais pobres da população. Isso é muito interessante porque, sobretudo no Nordeste, esse era o setor que votava normalmente com o conservadorismo e agora está com o lulismo. É uma oportunidade ímpar de politizar esses setores, no sentido da transformação social. No entanto, de 2010 para cá, passados quase dois anos, não vejo o PT muito engajado nesse tipo de trabalho. Eu às vezes temo que essa oportunidade seja perdida, uma oportunidade que está aberta para toda a esquerda. Porém, os setores da esquerda que não estão no PT têm tido dificuldade para compreender os avanços sociais e simultaneamente o impacto conservador que o lulismo representa. Há que se entender essa contradição e, ao não entender, perde-se a plataforma de diálogo com os setores que estão sendo beneficiados por essas políticas.

Luís Brasilino

Jornalista. Editor do Le Monde Diplomatique Brasil.


Ilustração: Daniel Kondo

1  “Cultura e política, 1964-69”. In: Roberto Schwartz, O pai de família e outros estudos, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.
2  Singer identifica que, desde a reeleição do presidente Lula em 2006, houve uma aproximação do subproletariado em direção ao lulismo e um distanciamento do PT por parte da classe média tradicional. Ver Os sentidos do lulismo, Companhia das Letras, São Paulo, 2012.
3  “Cabe ao PT politizar o subproletariado”, Brasil de Fato, São Paulo, n.374, 29 abr.-5 maio 2010.


Fonte: portal Diplomatique.org.br



DIREITO, LITERATURA E CINEMA
PROF. EDSON PIRES DA FONSECA (professoredsonfonseca@yahoo.com.br)
BREVE NOTA


Caríssimas e Caríssimos, a formação do profissional do direito exige não apenas o domínio da técnica jurídica, mas, também, sólida e ampla formação cultural e humanística. É por meio dos bons livros que ampliamos o nosso vocabulário, lapidamos a nossa escrita e expandimos os nossos horizontes. Papel semelhante cumprem os filmes, que, por meio da linguagem cinematográfica, nos transportam para diferentes realidades, culturas, situações, momentos históricos, sonhos etc.

Para aguçá-los ainda mais nessa seara apresento algumas dicas de filmes e livros que trazem temáticas e reflexões importantes para o direito e para a vida. Assistam e leiam de acordo com o interesse e disponibilidade de vocês. Muitas vezes a compreensão de um tema complexo é facilitada quando ele nos é apresentado por meio de outras formas de linguagem, como a cinematográfica, a poética, a fotográfica e a literária. Também nos permite uma visão interdisciplinar do problema, enriquecendo sobremaneira a análise. Dessa maneira, fica o convite para aliarmos lazer, formação cultural e jurídica.

Bons filmes e boas leituras!

Edson

19 de março de 2012 (atualizado em 08/05/2016)

I. FILMES

A ESPERA DE UM MILAGRE. Direção de Frank Darabont. 2000. EUA. 188min. (Tema: importante para reflexão sobre a pena de morte).

A FIRMA. (The Firm). Direção de Sydney Pollack. EUA. 154min. (Tema: suspense, baseado na obra homônima, de autoria de John Grisham, mostra o lado obscuro de uma grande firma de advocacia que lava dinheiro da máfia. Ela atrai jovens advogados, com altos salários, carros, casas e quando eles percebem já estão envolvidos nos negócios ilícitos. Importante discussão sobre ética na advocacia).

A HISTÓRIA DE RUBY BRIDGES. Direção de Euzhan Palcy. EUA. 96min. (Tema: a partir da história da pequena Ruby Bridges, permite compreender a temática do racismo nos EUA e as dificuldades para se efetivar a decisão da Suprema Corte no Caso Brown x Board of Education of Topeka, que em 1954 superou a doutrina “separados mas iguais (separate but equal)”, vigente nos Estados Unidos desde o final do século XIX, com a decisão no Caso Plessy x Ferguson).

A MAIOR LUTA DE MUHAMMAD ALI. Direção de Stephen Frears. 2013. EUA. 97 mim. (Tema: o filme mostra os bastidores da Suprema Corte dos Estados Unidos no julgamento da condenação de Ali à prisão por se recusar a servir o exército para lutar no Vietnã depois de se converter ao islamismo).

A PONTE DOS ESPIÕES. Direção de Steven Spielberg. 2015. EUA. 132min (Tema: advogado especializado em seguros é indicado para a defesa de um espião russo, preso nos EUA em plena guerra fria. A defesa deveria ser apenas formal, mas o advogado se envolve plenamente com o caso, desvelando a importância da Constituição, do direito de defesa e da ética na advocacia).

Direção de Michael Haneke. 2013. FRANÇA/ALEMANHA/ÁUSTRIA. 127min. (Tema: o filme tem como questão central a discussão sobre a eutanásia).

A QUALQUER PREÇO. Direção de Steven Zaillian. 1998. EUA. 114min. (Tema: advogado especializado em danos morais processo empresa que contaminou a água de um município).

A REVOLUÇÃO DOS BICHOS. Direção de John Halas e Joy Batchelor. 1955. Reino Unido. 73min. (Tema: baseado na obra homônima, de George Orwell, faz uma sátira ao regime stalinista).

A REVOLUÇÃO NÃO SERÁ TELEVISIONADA. (The revolution will not be televised) Documentário. Irlanda. (Tema: quando o povo venezuelano sai às ruas com a Constituição nas mãos para barrar o golpe de Estado de 2002 é possível vislumbrar o que Hesse chama de vontade de Constituição).

A SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS. Direção de Peter Weir. 1989. EUA. 128min. (Tema: Educação. Clássico do cinema, desnuda, dentre outras coisas, o papel emancipatório ou castrador que pode ter a educação).

A VIDA DE DAVID GALE. Direção de Alan Parker. 2003. EUA, REINO UNIDO. 132min. (Tema: discute a pena de morte e os perigos inerentes à sua aplicação).

A VILA. Direção de M. Night Shyamalan. EUA, 2004. 108 min. (Tema: temática atual, pois mostra o papel do medo como elemento de controle social. Importante para se pensar o mundo após os atentados de 11 de setembro, bem como o discurso hegemônico da insegurança pública como justificativa para a desumanização do direito penal).

AMÉM. Direção de Costa [Konstantinos] Gavras. França/Alemanha/Romênia/EUA: [S. n.], 2002. 130min. (Tema: o que fazer quando se sabe que se sabe? Responsabilidade. Nazismo).

ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO. Direção de Peter Cohen. Alemanha, 1989/1992. 121min. (Tema: é considerado um dos melhores documentários sobre o nazismo).

Direção de Clara Ramos. Brasil. 2010. 52 min. (Tema: discute o princípio penal da insignificância a partir da prisão de mulheres que praticaram pequenos delitos).

BICHO DE SETE CABEÇAS. Direção de Laís Bodanzky. Brasil, 2001. 80min. (Tema: baseado no livro “Canto dos Malditos”, de Austregésilo Carrano Bueno, é um símbolo da Luta Antimanicomial no Brasil).

CAPITALISMO. Direção de Michael Moore. EUA, 2009, 120min. (Tema: Documentário dirigido pelo polêmico cineasta americano, que mostra aspectos do capitalismo geralmente camuflados).

CIDADE DE DEUS. Direção de Fernando Meirelles. Brasil, 2002, 135min. (Tema: possibilita, entre outras riquíssimas discussões, uma abordagem sobre a questão do monismo jurídico e do pluralismo).

DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA. Direção de Sidney Lumet. EUA, 1957. 96 min. (Tema: dentre outras coisas, importante para perceber a importância da hermenêutica jurídica, da argumentação e da persuasão).

ERIN BROKOVICH: UMA MULHER DE TALENTO. Direção de Steven Soderbergh. EUA, 2000. 131min. (Tema: estrelado por Julia Roberts, conta a história de uma mulher que conseguiu convencer os moradores de uma cidade a entrarem com ação coletiva contra uma empresa que contaminou a água da localidade. Permite discussões na seara da responsabilidade civil e da ética na advocacia).

ESTAÇÃO CARANDIRU. Direção de Hector Babenco. Brasil, 2002, 146min. (Tema: Baseado no livro do médico Dráuzio Varella, este filme retrata o cotidiano naquele que foi até recentemente, antes de ser desativado, o maior presídio do país: o Carandiru. Permite importantes reflexões acerca do sistema prisional brasileiro).

FILADÉLFIA. Direção de Jonathan Demme. EUA, 1993, 125 min. (Tema: o jovem e talentoso advogado Andrew Beckett trabalha em um tradicional escritório de advocacia da Filadélfia. No entanto, a sua brilhante carreira é interrompida por uma armação feita para fazer com que parecesse incompetente, quando, na verdade, o demitiram ao descobrir que era portador do vírus HIV, contraído em uma relação homossexual. Beckett passa a lutar incessantemente por justiça; depois de tentar outras opções, acaba contratando um polêmico advogado para processar a firma que o demitiu).

GERMINAL. Direção de Claude Berri. Estados Unidos: [S. n.], 1993. 160min. (Tema: baseado na obra homônima de ZOLA, mostra o cotidiano dos trabalhadores de uma mina de carvão e a luta contra a exploração).

HOFFA, UM HOMEM, UMA LENDA. Direção de Denny DeVito. Estados Unidos/França, 1992. 140min. (Tema: Misturando realidade e ficção, conta a história de Jimmy Hoffa, importante líder sindical estadunidense, que presidiu o poderoso sindicato dos caminhoneiros dos EUA. Mostra a construção do sindicalismo nos EUA, permitindo reflexões na seara trabalhista e sindical).

HOTEL RUANDA. Direção Terry George. Ital, Afr.Sul, EUA. 2003, 117min. (Tema: Mostra a ditadura e a guerra civil em Ruanda. Conflitos tribais que mataram em cem dias quase um milhão de pessoas da etnia tutsis. Enquanto todos fechavam os olhos, a coragem de um homem fez a diferença, salvando a vida de mais de mil pessoas).

ILHA DAS FLORES. Direção de Jorge Furtado. Narração: Paulo José. Porto Alegre: [S. n.], 1989. 13min. (Tema: documentário filmado na periferia de Porto Alegre no final dos anos 80, que mostra algumas das graves consequências da desigualdade social).

JUÍZO. Direção de Maria Augusta Ramos. Brasil, 2007, 90min. (Tema: da mesma diretora do documentário Justiça, Juízo retrata o julgamento de adolescentes em conflito com a lei).

JULGAMENTO EM NUREMBERG. Direção e produção de Stanley Kramer. Inglaterra/Alemanha: United Artists/Roxion, 1961. 187min. (Tema: possibilita uma rica discussão sobre o positivismo jurídico e as suas perigosas consequências).

JUSTIÇA. Direção de Maria Augusta Ramos. Brasil, 2004, 100min. (Tema: mostra, sob as perspectivas de seus diversos atores, o cotidiano do Poder Judiciário do Rio de Janeiro).

JUSTIÇA PARA TODOS. Direção de Norman Jewison. EUA, 1979, 114min. (Tema: Conta a história de um advogado e um juiz que eram rivais; quando o juiz foi acusado de estupro escolheu para defendê-lo o advogado que era seu desafeto. Permite reflexões sobre ética na advocacia e o papel do criminalista).

LARANJA MECÂNICA. Direção de Stanley Kubrick. Inglaterra: [S. n.], 1971. 138min. (Tema: clássico do cinema; permite analisar questões importantes sobre criminologia e direito penal).

MAR ADENTRO. Direção de Alejandro Amenábar. Espanha/França/Itália: 20th Century Fox, 2004. 125min. (Tema: importante discussão sobre a eutanásia, tema candente no direito contemporâneo).

MISSISSIPI EM CHAMAS. Direção de Alan Parker. EUA, 1988. 128min. (Tema: trata da segregação racial nos Estados Unidos, a partir do assassinato de militantes dos direitos civis no Mississipi).

MENINA DE OURO. Direção de Clint Eastwood. EUA, 2005. 137min. (Tema: permite refletir sobre a eutanásia).

O ADVOGADO DO DIABO. Direção de Taylor Hackford. Edição de Mark Warner. Alemanha/Estados Unidos: Warner Bross, 1997. 144min. (Tema: ética na advocacia).

O CASO DOS IRMÃOS NAVES. Direção de Luís Sérgio Person. Brasil, 1967. 92 min. (Tema: os irmãos Naves foram condenados por um homicídio que não cometeram. Baseado em fatos reais, retrata um dos principais casos de erro judiciário da história brasileira).

O DESAFIO DA LEI. Direção David Anspaugh. EUA, 1999. 90min. (Tema: juiz da Suprema Corte dos EUA tem de lidar no seu primeiro caso com o delicado tema do aborto).

O DOSSIÊ PELICANO. Direção de Alan J. Pakula. EUA, 1993. (Tema: uma estudante de direito descobre um plano para assassinar dois juízes da Suprema Corte dos EUA).

O DESTINO DE UMA VIDA. Direção de Stephen Gyllenhaal. EUA, 1995. 106min. (Tema: uma criança negra é abandonada pela mãe, usuária de crack, e adotada por uma família branca. Depois de se livrar das drogas a mãe biológica tenta reaver a guarda da criança, em uma intensa batalha judicial).

O HOMEM QUE FAZIA CHOVER. Direção de Francis Ford Coppola. EUA, 1997. 134min. (Tema: baseado na obra homônima de John Grisham, conta a história de um jovem advogado que ajuda os pais de um garoto em estado terminal de vida a processar o plano de saúde).

O JARDINEIRO FIEL. (The Constant Gardener). Direção de Fernando Meirelles. EUA/REINO UNIDO, 2005. 128min. (Tema: indústria farmacêutica utiliza a população pobre do Quênia como cobaia para testes de novos medicamentos).

O MERCADOR DE VENEZA. Direção de Michael Radford. EUA/Itália/Luxemburgo/Inglaterra: Sony, 2004. 130min. (Tema: baseado na obra homônima de Shakespeare, permite vários recortes interessantes, que vão desde o antissemitismo até os limites de uma decisão judicial).

O PODER E A LEI. Direção de Brad Furman. EUA, 2011, 109min. (Tema: permite refletir sobre a ética na advocacia e o papel do advogado criminalista).

O PRISIONEIRO DA GRADE DE FERRO. Direção de Paulo Sacramento. Brasil, 2003, 123min. (Tema: filmado por detentos, este documentário mostrou o cotidiano do famoso presídio Carandiru, um ano antes da sua desativação).

O PROCESSO. Direção de Orson Welles. França/Alemanha/Itália: Continental, 1962. 119min. (Tema: baseado no livro de Franz Kafka é um marco na conexão entre direito, literatura e cinema).

O SENHOR DAS MOSCAS. Direção de Harry Hook. EUA, 1990. 90min. (Tema: baseado em obra literária homônima, permite analisar o “estado de natureza” hobbesiano).

O TERMINAL. Direção de Steven Spielberg. EUA, 2004. 128min. (Tema: viajante de um país da Europa Oriental não pode entrar em Nova Iorque porque o seu passaporte foi cancelado; mas também não pode retornar ao seu país, porque as fronteiras foram fechadas em decorrência de um golpe de Estado. Permite reflexões sobre direito internacional, estatuto dos estrangeiros entre outros temas).

O VEREDITO. Direção de Sidney Lumet. EUA, 1983. 129min. (Tema: Advogado enfrenta importante grupo para tentar ganhar um caso de erro médico).

OS MISERÁVEIS. Direção de Tom Hooper. Reino Unido, 2013, 152min. (Tema: inspirado na célebre obra de Victor Hugo, conta a história de Jean Valjean, que é preso ao roubar um pão para alimentar a irmã. Embora tente reconstituir a sua vida, Valjean é perseguido pelo implacável inspetor Javert).

QUESTÃO DE HONRA. Direção de Rob Reiner. EUA. 1992. 138min. (Tema: jovem advogado vai a fundo para desvendar um crime envolvendo militares).

RISCO DUPLO. (Double Jeopardy). Direção de Bruce Beresford. Alemanha/Canadá/EUA: Paramount, 1999. 105min. (Tema: o marido simula o próprio assassinato para incriminar a esposa e ficar com o seguro de vida. Pode a mulher, depois que sair da prisão, matá-lo sem ser mais punida, eis que já cumpriu a pena pelo seu assassinato?).

SEVEN – OS SETE CRIMES CAPITAIS. Direção de David Fincher. EUA. 1995. 126min. (Tema: trata da perseguição a um assassino em série que pratica os seus crimes inspirado nos sete pecados capitais).

SICKO: SOS SAÚDE. Direção de Michael Moore. EUA, 2007. (Tema: este documentário aborda as diversas facetas do sistema de saúde estadunidense, comparando-o com o sistema canadense, francês, inglês e cubano).

TERRA FRIA. Direção de Niki Caro. Roteiro de Michael Seitzman, baseado em livro de Clara Bingham e Laura Leedy. Estados Unidos: Warner Bros, 2005. 126min. (Tema: a partir da história de mulheres trabalhadoras nas minas dos EUA, discute machismo, assédio sexual e violência contra a mulher, temas, infelizmente, ainda muito recorrentes em nossa sociedade).

TIROS EM COLUMBINE. Direção de Michael Moore. (Tema: neste documentário Moore retrata a questão da venda de arma nos EUA a partir do trágico massacre de estudantes em Columbine, em 1999. Discussão atual no Brasil, principalmente depois do chamado “massacre de Realengo” e do assassinato da Família Pesseghini).      

ÚLTIMA PARADA 174. Direção de Bruno Barreto. Brasil, 2008. 110min. (Tema: conta a história de Sandro, morto pela Polícia quando sequestrou o famoso ônibus 174, no Rio de Janeiro. Mostra a história por outro ângulo, contando a história de Sandro desde o nascimento até o fatídico dia. Proporciona reflexões importantes na seara da criminologia, do combate à violência e do direito penal).

II. LITERATURA (há outras edições das obras aqui mencionadas)

BARCELOS, Caco. Abusado: o dono do morro Dona Marta. São Paulo: Record, 2003. (conta a história do traficante Marcinho VP, conhecido por ter feito a segurança de Michael Jackson em sua visita ao morro Dona Marta. VP foi morto logo após a publicação da obra).

DOSTOIÉSVSKI, Fiódor. Crime e castigo. 6ª ed. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Ed. 34, 2009. Ilustrações de Evandro Carlos Jardim (Clássico da literatura mundial, esta obra retrata o que se passa na cabeça de um assassino).

GOLDING, Willian. O Senhor das Moscas (Lord of the Flies). (Obra publicada em 1953, mostra o retorno à selvageria de um grupo de crianças obrigada a viver em uma ilha deserta, distante da presença de adultos. Importante reflexão acerca do estado de natureza. Tem duas versões cinematográficas).

GRISHAM, John. O Advogado. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. (Este autor escreveu diversas obras com a temática jurídica, de fácil e agradável leitura, são elas: Tempo de Matar; O Recurso; A Firma; O Homem que Fazia Chover, O Sócio, A Intimação, O Cliente, O Dossiê Pelicanao etc.

KAFKA, Franz. O processo. Rio de Janeiro: Globo, 2003. (Coleção Dois Mundos).

KAFKA, Franz. Na Colônia Penal. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

MACHADO DE ASSIS. Dom Casmurro. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

MACHADO DE ASSIS. O Alienista. São Paulo: Saraiva, 2007.

ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. Várias editoras e edições.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

RAMOS, Graciliano. Angústia. São Paulo: Record, 2003. (Nesta obra, Graciliano Ramos adentra, com profundidade, na mente de um assassino).

SHAKESPEARE, William. O mercador de Veneza. Porto Alegre: L&PM, 2007. Título original: The Merchant of Venice.

SÓFOCLES. Antígona. Tradução de Millôr Fernandes. São Paulo: Paz e Terra, 1997. (Importante para a compreensão do debate entre juspositivismo e jusnaturalismo).

TUROW, Scott. O primeiro ano: como se faz um advogado. Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos. São Paulo: Record, 1997. (Nesta obra, Turow narra a experiência vivida por um estudante de direito de Harvard, no primeiro ano de Curso).

VARELA, Dráuzio. Os Carcereiros. São Paulo: Cia. das Letras, 2012.

VARELA, Dráuzio. Estação Carandiru. São Paulo: Cia. das Letras.


III. OBRAS CLÁSSICAS

ARISTÓTELES. A Política.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.

BECCARIA, Cesare. Dos Delitos e das Penas. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

COULANGES, Fustel. A Cidade Antiga. [várias edições].

DANTE ALIGHIERI. A Divina Comédia.

GROTIUS, Hugo. O Direito da Guerra e da Paz [várias edições].

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

JHERING, Rudolf Von.  A Luta Pelo Direito. 23ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2007.

KANT, Emmanuel. A Doutrina do Direito. Editora Ícone.

KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. [várias edições]

LASSALE, Ferdinand. A Essência da Constituição.

MAQUIAVEL, Nicolai. O Príncipe. 5ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2009.

MONTESQUIEU, Charles L. O Espírito das Leis. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 

ROUSSEAU, Jean Jacques. O Contrato Social. 2ª ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2008.

WEBER, Max. Economia e Sociedade. 2 Vols. [várias edições].


Fonte: portal Juris Ciência

Patrono da turma de 2014 da faculdade de Direito da UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, proferiu emocionante discurso com reflexões essenciais relacionadas à vida e ao Direito.

Confira a íntegra do texto.

__________

A vida e o Direito: breve manual de instruções

I. Introdução

Eu poderia gastar um longo tempo descrevendo todos os sentimentos bons que vieram ao meu espírito ao ser escolhido patrono de uma turma extraordinária como a de vocês. Mas nós somos – vocês e eu – militantes da revolução da brevidade. Acreditamos na utopia de que em algum lugar do futuro juristas falarão menos, escreverão menos e não serão tão apaixonados pela própria voz.

Por isso, em lugar de muitas palavras, basta que vejam o brilho dos meus olhos e sintam a emoção genuína da minha voz. E ninguém terá dúvida da felicidade imensa que me proporcionaram. Celebramos esta noite, nessa despedida provisória, o pacto que unirá nossas vidas para sempre, selado pelos valores que compartilhamos.

É lugar comum dizer-se que a vida vem sem manual de instruções. Porém, não resisti à tentação – mais que isso, à ilimitada pretensão – de sanar essa omissão. Relevem a insensatez. Ela é fruto do meu afeto. Por certo, ninguém vive a vida dos outros. Cada um descobre, ao longo do caminho, as suas próprias verdades. Vai aqui, ainda assim, no curto espaço de tempo que me impus, um guia breve com ideias essenciais ligadas à vida e ao Direito.

II. A regra nº 1

No nosso primeiro dia de aula eu lhes narrei o multicitado "caso do arremesso de anão". Como se lembrarão, em uma localidade próxima a Paris, uma casa noturna realizava um evento, um torneio no qual os participantes procuravam atirar um anão, um deficiente físico de baixa altura, à maior distância possível. O vencedor levava o grande prêmio da noite. Compreensivelmente horrorizado com a prática, o Prefeito Municipal interditou a atividade.

Após recursos, idas e vindas, o Conselho de Estado francês confirmou a proibição. Na ocasião, dizia-lhes eu, o Conselho afirmou que se aquele pobre homem abria mão de sua dignidade humana, deixando-se arremessar como se fora um objeto e não um sujeito de direitos, cabia ao Estado intervir para restabelecer a sua dignidade perdida. Em meio ao assentimento geral, eu observava que a história não havia terminado ainda.

E em seguida, contava que o anão recorrera em todas as instâncias possíveis, chegando até mesmo à Comissão de Direitos Humanos da ONU, procurando reverter a proibição. Sustentava ele que não se sentia – o trocadilho é inevitável – diminuído com aquela prática. Pelo contrário.

Pela primeira vez em toda a sua vida ele se sentia realizado. Tinha um emprego, amigos, ganhava salário e gorjetas, e nunca fora tão feliz. A decisão do Conselho o obrigava a voltar para o mundo onde vivia esquecido e invisível.

Após eu narrar a segunda parte da história, todos nos sentíamos divididos em relação a qual seria a solução correta. E ali, naquele primeiro encontro, nós estabelecemos que para quem escolhia viver no mundo do Direito esta era a regra nº 1: nunca forme uma opinião sem antes ouvir os dois lados.

III. A regra nº 2

Nós vivemos em um mundo complexo e plural. Como bem ilustra o nosso exemplo anterior, cada um é feliz à sua maneira. A vida pode ser vista de múltiplos pontos de observação. Narro-lhes uma história que li recentemente e que considero uma boa alegoria. Dois amigos estão sentados em um bar no Alaska, tomando uma cerveja. Começam, como previsível, conversando sobre mulheres. Depois falam de esportes diversos. E na medida em que a cerveja acumulava, passam a falar sobre religião. Um deles é ateu. O outro é um homem religioso. Passam a discutir sobre a existência de Deus. O ateu fala: "Não é que eu nunca tenha tentado acreditar, não. Eu tentei. Ainda recentemente. Eu havia me perdido em uma tempestade de neve em um lugar ermo, comecei a congelar, percebi que ia morrer ali. Aí, me ajoelhei no chão e disse, bem alto: Deus, se você existe, me tire dessa situação, salve a minha vida". Diante de tal depoimento, o religioso disse: “Bom, mas você foi salvo, você está aqui, deveria ter passado a acreditar". E o ateu responde: "Nada disso! Deus não deu nem sinal. A sorte que eu tive é que vinha passando um casal de esquimós. Eles me resgataram, me aqueceram e me mostraram o caminho de volta. É a eles que eu devo a minha vida". Note-se que não há aqui qualquer dúvida quanto aos fatos, apenas sobre como interpretá-los.

Quem está certo? Onde está a verdade? Na frase feliz da escritora Anais Nin, “nós não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos”. Para viver uma vida boa, uma vida completa, cada um deve procurar o bem, o correto e o justo. Mas sem presunção ou arrogância. Sem desconsiderar o outro.

Aqui a nossa regra nº 2: a verdade não tem dono.

IV. A regra nº 3

Uma vez, um sultão poderoso sonhou que havia perdido todos os dentes. Intrigado, mandou chamar um sábio que o ajudasse a interpretar o sonho. O sábio fez um ar sombrio e exclamou: "Uma desgraça, Majestade. Os dentes perdidos significam que Vossa Alteza irá assistir a morte de todos os seus parentes". Extremamente contrariado, o Sultão mandou aplicar cem chibatadas no sábio agourento. Em seguida, mandou chamar outro sábio. Este, ao ouvir o sonho, falou com voz excitada: "Vejo uma grande felicidade, Majestade. Vossa Alteza irá viver mais do que todos os seus parentes". Exultante com a revelação, o Sultão mandou pagar ao sábio cem moedas de ouro. Um cortesão que assistira a ambas as cenas vira-se para o segundo sábio e lhe diz: "Não consigo entender. Sua resposta foi exatamente igual à do primeiro sábio. O outro foi castigado e você foi premiado". Ao que o segundo sábio respondeu: "a diferença não está no que eu falei, mas em como falei".

Pois assim é. Na vida, não basta ter razão: é preciso saber levar. É possível embrulhar os nossos pontos de vista em papel áspero e com espinhos, revelando indiferença aos sentimentos alheios. Mas, sem qualquer sacrifício do seu conteúdo, é possível, também, embalá-los em papel suave, que revele consideração pelo outro.

Esta a nossa regra nº 3: o modo como se fala faz toda a diferença.

V. A regra nº 4

Nós vivemos tempos difíceis. É impossível esconder a sensação de que há espaços na vida brasileira em que o mal venceu. Domínios em que não parecem fazer sentido noções como patriotismo, idealismo ou respeito ao próximo. Mas a história da humanidade demonstra o contrário. O processo civilizatório segue o seu curso como um rio subterrâneo, impulsionado pela energia positiva que vem desde o início dos tempos. Uma história que nos trouxe de um mundo primitivo de aspereza e brutalidade à era dos direitos humanos. É o bem que vence no final. Se não acabou bem, é porque não chegou ao fim. O fato de acontecerem tantas coisas tristes e erradas não nos dispensa de procurarmos agir com integridade e correção. Estes não são valores instrumentais, mas fins em si mesmos. São requisitos para uma vida boa. Portanto, independentemente do que estiver acontecendo à sua volta, faça o melhor papel que puder. A virtude não precisa de plateia, de aplauso ou de reconhecimento. A virtude é a sua própria recompensa.

Eis a nossa regra nº 4: seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando.

VI. A regra nº 5

Em uma de suas fábulas, Esopo conta a história de um galo que após intensa disputa derrotou o oponente, tornando-se o rei do galinheiro. O galo vencido, dignamente, preparou-se para deixar o terreiro. O vencedor, vaidoso, subiu ao ponto mais alto do telhado e pôs-se a cantar aos ventos a sua vitória. Chamou a atenção de uma águia, que arrebatou-o em vôo rasante, pondo fim ao seu triunfo e à sua vida. E, assim, o galo aparentemente vencido reinou discretamente, por muito tempo. A moral dessa história, como próprio das fábulas, é bem simples: devemos ser altivos na derrota e humildes na vitória. Humildade não significa pedir licença para viver a própria vida, mas tão-somente abster-se de se exibir e de ostentar. Ao lado da humildade, há outra virtude que eleva o espírito e traz felicidade: é a gratidão. Mas atenção, a gratidão é presa fácil do tempo: tem memória curta (Benjamin Constant) e envelhece depressa (Aristóteles). Portanto, nessa matéria, sejam rápidos no gatilho. Agradecer, de coração, enriquece quem oferece e quem recebe.

Em quase todos os meus discursos de formatura, desde que a vida começou a me oferecer este presente, eu incluo a passagem que se segue, e que é pertinente aqui. "As coisas não caem do céu. É preciso ir buscá-las. Correr atrás, mergulhar fundo, voar alto. Muitas vezes, será necessário voltar ao ponto de partida e começar tudo de novo. As coisas, eu repito, não caem do céu. Mas quando, após haverem empenhado cérebro, nervos e coração, chegarem à vitória final, saboreiem o sucesso gota a gota. Sem medo, sem culpa e em paz. É uma delícia. Sem esquecer, no entanto, que ninguém é bom demais. Que ninguém é bom sozinho. E que, no fundo no fundo, por paradoxal que pareça, as coisas caem mesmo é do céu, e é preciso agradecer".

Esta a nossa regra nº 5: ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.

VII. Conclusão

Eis então as cláusulas do nosso pacto, nosso pequeno manual de instruções:

1. Nunca forme uma opinião sem ouvir os dois lados;
2. A verdade não tem dono;
3. O modo como se fala faz toda a diferença;
4. Seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando;
5. Ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.

Aqui nos despedimos. Quando meu filho caçula tinha 15 anos e foi passar um semestre em um colégio interno fora, como parte do seu aprendizado de vida, eu dei a ele alguns conselhos. Pai gosta de dar conselho. E como vocês são meus filhos espirituais, peço licença aos pais de vocês para repassá-los textualmente, a cada um, com toda a energia positiva do meu afeto:

(i) Fique vivo;
(ii) Fique inteiro;
(iii) Seja bom-caráter;
(iv) Seja educado; e
(v) Aproveite a vida, com alegria e leveza.

Vão em paz. Sejam abençoados. Façam o mundo melhor. E lembrem-se da advertência inspirada de Disraeli: "A vida é muito curta para ser pequena".


Fonte: portal Migalhas

De “As Veias Abertas da América Latina”, obra histórica visceral, Galeano passou ao relato poético e breve, mas não menos essencial

Por Vanessa Martina Silva, do Opera Mundi


5-livros-para-entender-eduardo-galeano“O mundo está feito de histórias. São as histórias que contamos, escutamos, multiplicamos, que permitem converter o passado em presente e o distante em próximo, o que está longe em algo próximo, possível e visível”. (Eduardo Galeano, 1940 – 2015).

Do microcosmo, Eduardo Galeano, que morreu nesta segunda-feira (13/04), pretendia alcançar toda a humanidade. Com os pequenos fatos cotidianos, recriar a história oficial, contada para que os pequenos, os pobres, as mulheres, os negros, os indígenas não tivessem voz. Trabalhou toda a vida para inverter a perversa ordem.

De “As Veias Abertas da América Latina”, obra histórica visceral, símbolo da esquerda latino-americana, Galeano passou ao relato poético e breve, mas não menos essenciais. Classificar suas obras nas categorias existentes é uma difícil e às vezes impossível missão já que mistura poesia, história, análise, relatos.

1. As Veias Abertas da América Latina (1971)

“Nós nos negamos a escutar as vozes que nos advertem: os sonhos do mercado mundial são os pesadelos dos países que se submetem aos seus caprichos. Continuamos aplaudindo o sequestro de bem naturais com que Deus, ou o Diabo, nos distinguiu, e assim trabalhamos para a nossa perdição e contribuímos para o extermínio da escassa natureza que nos resta”. O trecho consta no prefácio de Galeano à edição do livro As Veias Abertas da América Latina (L&PM, 2010, 397 páginas, R$44).

Publicado pela primeira vez em 1971, o autor passou a vida lamentando a atualidade da obra que pela transcendência, marcou a esquerda latino-americana e chegou a ser proibido na Argentina, Chile, Brasil e no Uruguai, durante as ditaduras militares nesses países.

Do período colonial até a contemporaneidade, passando pelas ditaduras do subcontinente, a obra questiona: “o subdesenvolvimento é uma etapa no caminho do desenvolvimento ou é consequência do desenvolvimento alheio?” e analisa a exploração econômica e a dominação política na América Latina.

A obra ganhou ainda mais notoriedade quando em 2009, o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez o deu de presente ao mandatário norte-americano, Barack Obama, durante a 5ª Cúpula das Américas. Mas, Galeano considerou, no final da vida, a obra ultrapassada. Em declarações a jornalistas durante a 2ª Bienal do Livro de Brasília no ano passado, o autor afirmou: “eu não seria capaz de ler de novo. Cairia desmaiado. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é chatíssima. Meu físico não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro”.

2. Memória do fogo (1982-1986)

Publicado em forma de trilogia, o livro, premiado pelo Ministério da Cultura do Uruguai e com o American Book Award, distinção fornecida pela Universidade de Washington, combina elementos de poesia, historia e conto. É composto pelos livros “Os Nascimentos” (1982), “As Caras e as Máscaras” (1984) e “O Século do Vento” (1986) (L&PM, 2010, 1584 páginas, R$69).

Os livros trazem poemas, transcrição de documentos, descrição dos fatos e interpretação de movimentos sociais e culturais, que compõem uma cronologia de acontecimentos, proporcionando uma visão de conjunto sobre a identidade latino-americana.

Como em “As Veias Abertas”, o livro propõe-se a ser uma revisão da história da região, desde o descobrimento até nossos dias, para enfrentar a “usurpação da memória” da história oficial. Com textos independentes que se encaixam e se articulam entre si, a obra traz um quadro completo dos últimos 500 anos. Apesar de manter a cronologia das histórias, o autor ignora a geografia para dar, assim, uma melhor ideia da unidade da história americana, para além das fronteiras fixadas “em função de interesses alheios às realidades nacionais”, como definiu.

3. Dias e Noites de Amor e Guerra (1975)

Vencedor do Prêmio Casa das Américas de 1978, “Dias e Noites de Amor e de Guerra” (L&PM, 2001, 200 páginas, R$ 19,90) é uma crônica novelada das ditaduras de Argentina e Uruguai, um relato autobiográfico, uma memória íntima, convertida em memória coletiva.

Junto ao horror dos amigos que desapareceram, Galeano traz o amor, os amigos, os filhos, a paisagem, tudo aquilo que ainda na escuridão de uma guerra suja e despiedada contra os mais fracos segue sendo motivo para viver, para defender as ideias e para alçar a voz contra os que atuavam impunemente para implantar o medo e a conseguinte paralização.

“Às vezes, sinto que a alegria é um delito de alta traição, que sou culpado do privilégio de seguir vivo e livre. Então me faz bem lembrar o que disse o cacique Huillca, no Peru, falando diante das ruínas: ‘aqui chegaram. Quebraram até as pedras. Queriam nos fazer desaparecer. Mas não conseguiram, porque estamos vivos’. E penso que Huilca tinha razão. Estar vivos: uma pequena vitória. Estar vivos, ou seja: capazes de alegria, apesar dos adeuses e os crimes”, como consta na contracapa do livro.

4. Os filhos dos dias (2012)

“Os Filhos dos Dias” (L&PM, 2012, 432 páginas, R$ 49) se inspira na sabedoria maia e traz 366 relatos que compõem a história, desde a Antiguidade até o presente. É baseado em uma versão do Gênesis que Galeano escutou em uma comunidade maia da Guatemala. “Se somos filhos dos dias, nada tem de estranho que cada dia tenha uma história para oferecer”. Assim, o livro, escrito em forma de calendário, traz episódios que ocorreram no México de 1585, no Brasil de 1808, na Alemanha de 1933 e em outras épocas e países.

A obra, que não pode ser definida em nenhum gênero por ser, ao mesmo tempo, todos (jornalismo, literatura, música e poesia), foi trabalhada ao longo de quatro anos. Teve 11 versões antes de ser publicada. “Sou um perfeccionista insuportável”, reconheceu Galeano. “É um livro que dói, mas também faz rir”, disse.

A mulher, o poder, os maias, as culturas originárias, o homem, a legalização das drogas são temas presentes. Com um olho no microscópio e outro no telescópio, Galeano forma um mosaico que permite contemplar o micromundo, de onde acredita que sai a grandeza do universo. “O prazer de encontrar essas histórias é descobrir o que não foi contado, ou que foi mentido pelas vozes do poder: essas contra vozes que o poder oculta porque não convém a eles que saibamos”.

Em entrevista ao site mexicano La Jornada, disse: “Vivemos presos em uma cultura universal que confunde a grandeza com o grandinho. Creio que a grandeza alenta, escondida, nas coisas pequeninas, as pequenas histórias da vida cotidiana que vão formando o colorido mosaico da história grande. Não é fácil escutar esses sussurros quando vivemos mal a vida convertida no espetáculo grande e gigantesco”.

5. Mulheres (1997)

“Mulheres” (L&PM, 1998, 176 páginas, R$ 18) é uma coletânea de textos publicados nos livros “Vagamundo e outros contos”, “Dias e Noites de Amor e de Guerra”, “Memória do Fogo” (trilogia), “O Livro dos Abraços” e “As Palavras Andantes”.

De forma lírica e poética, o autor traz relatos de mulheres célebres, anônimas que com sua vivência, deixaram marcas no dia a dia das pessoas com as quais conviveram e, por isso, devem ser lembradas.

O livro traz histórias de Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), escritora norte-americana, cuja produção literária enfoca as relações entre mulher e homem e a opressão da sociedade em que viveu; da escrava Jacinta de Siqueira, “africana do Brasil, fundadora da Vila do Príncipe e das minas de ouro dos barrancos de Quatro Vinténs”; de Xica da Silva, escrava que virou rainha no século XVIII; da revolucionária Manuela Saénz, que junto a Simón Bolívar, seu amante, lutou pela independência das colônias sul-americanas; da compositora e cantora Violeta Parra, considerada a mais importante folclorista do Chile e ainda de Frida Khalo, Tina Modotti, Evita, Carmem Miranda, Isadora Duncan.


Fonte: Revista Forum


Mesmo muito querida pelo público e conquistando prêmios importantes logo no início, a cinessérie do icônico Rocky Balboa tem lá seus altos e baixos. De todos os filmes lançados até aqui, apenas um está à altura do memorável Rocky: Um Lutador (1976), e é justamente Rocky Balboa (2006), obra que parecia ter encerrado a passagem do Garanhão Italiano nos cinemas. Mas eis que o jovem cineasta Ryan Coogler surge com uma ideia inusitada e não só faz a franquia ganhar fôlego, como também alcança níveis há tempos não notados nos anteriores.

Vindo do ótimo e pungente Fruitvale Station: A Última Parada (2013), também estrelado por Michael B. Jordan, Coogler parece seguir uma linha temática interessante e contestadora em sua carreira, discutindo valores em relação às figuras marginalizadas por parte da visão deturbada na sociedade moderna. E este Creed: Nascido para Lutar rapidamente mostra sua preocupação ao abordar na introdução temas como a relegação do menor em reformatórios e a falta de oportunidades sem que exista um sobrenome para servir de base. O que vai sendo mais bem explorado e analisado durante a exibição.

Vemos aqui a história de Adonis Johnson (B. Jordan), o filho que o lendário lutador Apollo Creed teve fora do casamento, e que nunca conheceu o pai, já que este faleceu antes de seu nascimento. E é admirável como o corajoso texto também assinado por Coogler trata logo na plot de temas tão delicados como a traição gerando um fruto bastardo que foi abandonado. O tópico não é gritado aos quatro ventos, mas está lá sendo debatido.

Aliás, o roteiro segue uma estrutura aparentemente esquemática já vista em inúmeras obras do estilo, onde um jovem lutador (Adonis) é treinado por um mestre (Rocky) que de início se nega a função, mas com o tempo torna-se quase um pai do pupilo. E por assim o protagonista consegue superar as adversidades e vencer no final de algum modo. Mas felizmente o roteiro de Coogler vai além, pois como já citado, é rico por trazer variados pontos e abordá-los organicamente, como insere homenagens sutis a toda saga nesse meio tempo deixando o universo fílmico mais interessante. Assim como no meio do segundo ato é adicionada uma nova adversidade dentro da trama, criando uma alegoria que traz o Rocky lutando novamente. Se o novo Creed luta por glória e reconhecimento, Balboa batalha agora pela sobrevivência.

Uma acertada escolha que traz peso dramático ao personagem de Sylvester Stallone, que não desperdiça a oportunidade e faz aqui uma interpretação memorável. Não é surpresa ele ter levado o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante. Assim como Michael B. Jordan consegue passar a veracidade exigida para o seu Adonis, sempre muito conectado e lembrando em alguns andamentos os trejeitos de Carl Weathers. A fita também abre espaço para Tessa Thompson, onde faz uma figura que por sua vez enfrenta uma triste realidade que a cada dia parece mais próxima. O ponto fora da curva fica por conta do antagonista Pretty, vivido por Tony Bellew, concebido de maneira absolutamente caricatural, diferente do original, que acabou gerando esta nova obra, temos um dito vilão do qual não se cria mínima empatia.

Mas curiosamente um dos tópicos que mais chama atenção em Creed – Nascido para Lutar é o seu lado técnico. Ryan Coogler conduz o longa com muita competência e segurança, não tem medo de ousar e utilizar técnicas variadas, criando alegorias do esporte ao acompanhar com a câmera Adonis por trás, como se este fosse entrar num ringue. Nota-se que cada luta é despontada com um estilo distinto. A primeira delas é vista por uma câmera fixa fora do ringue onde enxergamos as cordas enquanto os lutadores estão se confrontando. Outra em particular é iniciada desde os preparatórios até o fim com um plano longo magnificado que deixará o público sem folego. Por fim temos um entrave bastante enérgico e repleto de planos detalhes que certamente causará a catarse pretendida pelo realizador.

ste que, mesmo falando com diversas plateias, não perdeu sua essência autoral. E isto está evidente em algumas cenas mais prolixas ou menos convencionais, auxiliada pela maravilhosa fotografia de Maryse Alberti, que confere tons mais densos à atmosfera fílmica, mostrando a Filadélfia que víamos no conto original. A essência urbana é enxergada aqui novamente, as ruas parecem expor o sentimento local, mérito para o ótimo design de produção assinado pro Hannah Beachler. De modo que a trilha sonora de Ludwig Göransson é inovadora e vai aos poucos adicionando a melodia clássica criada por Bill Conti.

Temos então um recomeço extremamente importante para a franquia, certamente não será este o último filme que veremos de Rocky e companhia. Uma história que não só vai fazer os fãs vibrarem como se estivessem no ringue vendo a luta ao vivo, como também trará novos admiradores e apreciadores do bom cinema. E se as continuações forem realizadas com o cuidado e o desejo de renovação que os produtores tiveram aqui, que façam mais exemplares estrelados por Adonis.


Confira a crítica completa e o vídeo, clicando aqui.


Fonte: CinePop

No Brasil são raros os personagens como Luiz Carlos Prestes (1898-1990). Foi daqueles que defenderam suas ideias ao longo da vida sem abrir mão de nada, mesmo que ao custo de sua liberdade e de suas condições de vida. No entanto, mesmo naquelas elementares e aparentes formas óbvias de reconhecimento desse compromisso de Prestes em sua luta na defesa de seu país, como a inserção de seu nome no “Livro dos Heróis e das Heroínas da Pátria”, se oculta o seu nome atrás de primários argumentos que rescendem à velha e aparentemente finda Guerra Fria. E o exemplo dessa vida, que poderia ajudar a melhor moldar o chamado “caráter brasileiro”, é ignorado, não é apresentado às novas gerações, que têm seu futuro ameaçado por “reorganizações do ensino” e até assaltos à merenda.

Felizmente, ao menos, os interessados na vida e nas lutas de Luiz Carlos Prestes hoje possuem um significativo número de obras a esse respeito. Embora desde os anos 1920 Prestes já viesse sendo objeto de obras de caráter “biográfico”, que, na verdade, eram textos circunstanciais e voltados, pró ou contra, às posições de Prestes – aqui incluída a tocante biografia romanceada de Jorge Amado (O Cavaleiro da Esperança: Vida de Luís Carlos Prestes. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, cuja primeira edição, publicada no exílio do autor, é de 1942) –, foi somente algum tempo após sua morte que o comandante da Coluna Prestes e secretário-geral do Partido Comunista do Brasil (PCB) foi objeto de obras mais rigorosas. Há algum tempo foi traduzida uma biografia originalmente publicada na Rússia por um especialista em assuntos latino-americanos e brasileiros do Instituto da América Latina da Academia de Ciências russa (Boris I. Koval, Heroísmo Trágico do Século XX: o Destino de Luiz Carlos Prestes. São Paulo: Alfa-Omega, 2007). Poucos anos depois foi a vez de um historiador brasileiro da Universidade Federal Fluminense ocupar-se com Prestes (Daniel Aarão Reis, Luís Carlos Prestes: um Revolucionário entre Dois Mundos. São Paulo: Companhia das Letras, 2014), obra esta já apresentada na resenha "Primeiro trabalho de fôlego sobre o Cavaleiro da Esperança", aos leitores de Teoria e Debate. Agora se publica nova biografia de Prestes", desta feita de autoria da historiadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e, além disso, filha do biografado, Anita Leocadia Prestes (Luiz Carlos Prestes: um Comunista Brasileiro. São Paulo: Boitempo, 2015).

A biografia de Anita Leocadia Prestes inicia-se com o reconhecimento de que o seu livro “não é nem pretende ser a biografia definitiva de Luiz Carlos Prestes”. Em que pese ser esta uma frase formal daquelas que usualmente encontramos em mais de um lugar, pois o autor sabe ser sua obra dotada de qualidades que a fazem ser um sólido texto, ela é verdadeira. Luiz Carlos Prestes: um Comunista Brasileiro é apreciado com muito mais proveito se for acompanhado da leitura do trabalho de Reis. Isso se dá em razão, sobretudo, de algo que a autora, também no início da sua obra, se propõe a fazer, mas não consegue: superar a “ligação afetiva com aquele que era, ao mesmo tempo, o principal ator e a fonte fundamental de seu relato”. Isso acontece especialmente quando são abordados temas familiares e, principalmente, em alguns episódios ocorridos entre os anos 1970 e o final da existência de Luiz Carlos Prestes, nos quais a autora esteve pessoalmente envolvida como militante comunista, ao lado do pai.

Além disso, existem ausências, até justificáveis, embora discutíveis, motivadas por questões de segurança. Refiro-me aqui em especial à vida de Prestes em Moscou, compartilhada pela autora, da qual ficamos pouco sabendo a respeito do que o velho herói tratava com os seus camaradas soviéticos e de outros partidos comunistas, ao menos sobre questões brasileiras. A biógrafa preferiu centrar-se nas polêmicas intracomunistas brasileiras. Outras ausências são curiosas, como a omissão da informação de que, durante o período em que esteve preso, nos anos 1938-1939, ocorria uma grave cisão no PCB, que o varreu de alto a baixo. Talvez isso se explique pelo fato de que Prestes, na correspondência que conseguiu enviar clandestinamente de seu cárcere, tenha manifestado opiniões que praticamente reproduziam as da ala de Herminio Sacchetta, que, como sabe, mais tarde acabou aderindo ao trotskismo, criticando o grupo capitaneado por Lauro Reginaldo da Rocha, o Bangu, o qual acabou vencedor na disputa interna.

Essas discussões não devem, por outro lado, obscurecer importantes questões tratadas pela autora de forma acurada e brilhante. Refiro-me aqui à maneira detalhada e cristalina com que ela acompanha a trajetória da Coluna Prestes e a importância dela para o Brasil na luta contra a oligarquia “café com leite”, e que alçou Prestes à condição de mito vivo. Uma pequena curiosidade que é impossível deixar de mencionar aqui. É impossível deixar de perceber como hábitos constatados hoje têm raízes históricas. Anita Leocadia Prestes nos conta como o dinheiro de uma subscrição supostamente levantada em favor da Coluna Prestes pelo O Globo (sim, ele mesmo!) não chegou ao seu destino (p. 103).

Um segundo ponto de destaque é o dos exílios boliviano, argentino e uruguaio de Prestes depois da Coluna Prestes ter ensarilhado suas armas. Indo das difíceis condições de vida dos 620 remanescentes e do empenho de Prestes para garantir-lhes condições de sobrevivência até a adesão de seu comandante ao comunismo, tudo isso sempre permeado por seu inflexível caráter. Isso, por outro lado, o levou ao início de uma série de situações em que se viu isolado ou cercado por uma “proteção” que o impediu de buscar contato com as massas, coisa que sempre aspirara. Seja a adesão ao comunismo que o isolou dos seus companheiros de Coluna Prestes, os chamados “tenentes”, na virada dos anos 1920-1930; seja em 1935, quando o então secretário do PCB, Antônio Maciel Bonfim, o Miranda, dificultou seu acesso à estrutura partidária do PCB; ou, então, seja de fins dos anos 1940 até meados da década de 1950, quando o secretário de organização Diógenes de Arruda Câmara repetiu Miranda e o isolou do partido. É claro que aqui cabe a pergunta que se deixa de fazer no livro sobre como a cultura do chamado stalinismo fez com que Prestes acabasse aceitando quase passivamente esse “emparedamento”.

Outra questão importante tratada pela autora é a do processo de reformismo do PCB, iniciado com sua ligação atávica com a revolução democrático-burguesa, por etapas, vinda desde o final dos anos 1920 e que sempre elidiu a questão da conquista do poder pela classe trabalhadora, e a crença na existência de uma suposta “burguesia nacional progressista”, que levaram o PCB a uma série de graves equívocos políticos. Anita Leocadia Prestes acompanha meticulosamente essa trajetória, com suas idas e vindas, em especial a partir do final dos anos 1940 até, especialmente, os anos 1970, fazendo com que Prestes saísse do partido em 1980 e o PCB acabasse açambarcado pelos chamados reformistas, a quem a autora, retomando expressão de Lênin, designa como “pântano”. Ao acompanhar pormenorizadamente essa trajetória, o leitor tem uma clara compreensão de como o Partido Comunista rolou “cuesta abajo” e acabou transformando-se no PPS, o qual se sabe onde acabou. No entanto, em muitos momentos ficamos sem saber qual o verdadeiro papel de Prestes em vários episódios e “viradas” política. Faltou, enfim, a este exame um acerto de contas, outra vez, com o stalinismo, o qual, fundado na teoria do “socialismo em um só país”, sempre colocou a URSS acima de tudo, fazendo dos demais partidos comunistas elementos estratégicos subordinados à sua ziguezagueante política internacional de defesa do estado e da burocracia soviéticos. Assim, aqui cabe a pergunta até que ponto Prestes teve alguma dúvida em construir esse pesado acúmulo de erros do “Partidão”, do qual somente se livrou em 1980.

Enfim, não são poucas as qualidades que tornam a biografia de Anita Leocadia Prestes uma obra indispensável à compreensão da trajetória política de seu pai e, sobretudo, para entender por que o Brasil se apequena em não render a Luiz Carlos Prestes as devidas e merecidas homenagens.

Dainis Karepovs é pós-doutor em História pelo IFCH-Unicamp e diretor do Centro de Documentação do Movimento Operário Mario Pedrosa (Cemap-Interludium)


Fonte: portal Teoria e Debate

MKRdezign

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget